Um conto intrigante – Dr. Francisco Mello
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Um conto intrigante – Dr. Francisco Mello

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UM CONTO INTRIGANTE

Apesar de ser advogado, Benites Suarez sempre gostou de comunicação. De 1992/1997, apresentou programas televisivos, comentou futebol, fez jornadas esportivas, secretariou Associações de Cronistas Esportivos e escreveu em jornais. Apresentou também programas Country em várias rádios de alguns departamentos do Uruguai. Na Rádio Campeira da Capital, por exemplo, a abertura do programa era assim: Começa aqui neste instante, o programa Country e Cia; Benites é quem apresenta, Madero sonoplastia, nós gostamos muito disso, pois o nosso compromisso e com a sua alegria. Seguraaaaa Peãooooo.

Pois bem, a convivência de Benites com os colegas de imprensa era excelente. Faziam churrascos, jogavam futebol, truco e bebiam de tudo, uns mais, e, outros com moderação. Ao final de uma churrasqueada numa sexta feira na casa de Benites, quase todos saíram, no entanto um dos seus mais leais companheiros, o radialista Morelos Muñoz – grande repórter esportivo e torcedor fanático do Peñarol, de Montevidéu – resolveu beber a saideira enquanto ouvia a música Mercedita.

De repente ouviu-se um chiado intermitente na cozinha; a gurizada mexeu na mangueira do fogão e iniciou-se um vazamento, seguido de um forte cheiro de gás. Todos iam até a porta, mas retornavam apavorados temendo uma explosão.  Um esguicho branco com enorme pressão se precipitava do botijão para o teto manchando a laje. Resolveram ir para o jardim e ligar para os bombeiros. Eles chegaram, e um deles adentrou a cozinha; serenamente removeu o botijão para o meio da rua, rindo, enquanto todos corriam. Como num passe de mágica neutralizou o vazamento para alívio dos presentes.

Nesta época Benites ia sempre à Rádio aos domingos pela manhã, gravar os comerciais dos seus patrocinadores. Botava voz, com auxílio técnico do seu amigo Javier Gonzalez, e depois ficavam jogando conversa fora ou vendo e ouvindo Alejandros Contreras, um Pai de santo,  apresentar seu programa terceirizado, com jogo de conchas, tarô, oráculos, mantras, e outras coisas do gênero. Pregava a felicidade, a conquista e reconquista do amor, a prosperidade, a realização dos sonhos e o combate ao mal olhado mediante a realização de alguns trabalhos.

As pessoas ligavam, pediam ajuda espiritual ao apresentador que incorporava umas entidades, mudava de voz, fazia a louvação e as encomendações necessárias para espancar os males e exorcizar os demônios dos ouvintes. Vez por outra ele repetia: No olviden que tengo dominio sobre fuerzas negativas y soy un proveedor de la felicidad, marquen una consulta y se libere de la depresión. Não esqueçam que tenho domínio sobre as forças negativas e sou um provedor da felicidade, marquem uma consulta e livrem-se da depressão.

Certo domingo, como costumeiro, Benites chegou à rádio, gravou seus comerciais e saiu da sala de produções para o Studio, momento em que o locutor do ofício, com a voz embargada informou: “Nota de falecimento. É com muito pesar que noticiamos o falecimento de Alejandros Contreras, titular do programa deste horário”. Apreensivo, Benites procurou saber detalhes e lhe disseram: O Pai de Santo se suicidou!  Benites pensou: Mas que tal… quem diria; no mínimo intrigante!

Dr. Francisco Mello dos Santos. Advogado Criminalista. OAB-MT 9550. Especialista em Direito Penal e Processual Penal. drfranciscomello@terra.com.br (669)96892292.