Totó – Um cachorro narrador-personagem
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Totó – Um cachorro narrador-personagem

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Totó

10.2.09

Obra do Professor Paulo Branco – Caricaturista

 

– Vem cá, Totó! – disse o Antonio.

Atendi o chamado e sentei-me à frente do chefe. Esperei a bronca. Já estava acostumado com o timbre da voz dele e aquele não me era diferente. Eu já tinha quase oito anos de idade. Estava tarimbado com os acontecimentos.

– Fique sentado vigiando o portão, pois os moleques vão chutá-lo novamente e vamos dar um susto neles – falou e saiu.

Mesmo não sendo gato, ericei meus pelos negros e fiquei um bom tempo e nada dos meninos fazerem as brincadeiras deles. Já sentia o cheiro da comida e o barulho das panelas. Barulhos que se mudaram para pratos e talheres. Esperei mais um pouco até me chamarem. Fiz minha refeição e um bom quilo.

– Acorda, Totó, vamos sair – chamou-me o Antonio.

Antonio, um trintão cheio de saúde, moreno, cabelos negros encarapinhados. Gosta da vida boa, mas tem que ralar muito para criar a família, esposa e filha. Rodou as chaves na mão, da sua caminhonete C-10, movida a gás, com carroceria de madeira. Já havia visto meu chefe amarrar o câmbio com arame farpado daquele carro, quando duma viagem. Acho que as peças de reposição são muito caras por aqui, ou não têm no mercado, ou ainda, não temos grana suficiente para comprar. Os documentos da caminhonete eu nunca vi, como repete o Antonio: parece coxa de freira, existe mas ninguém vê.

A C-10 saiu bufando óleo lubrificante gaseificado pelo escapamento, trôpega como um bêbado ladeira abaixo, dirigida pelo Carlão, outro moreno arretado, pau para toda obra. Meia idade e de média estatura. Estacionamos num canteiro de obras e enchemos a carroceria de troncos de eucaliptos. Já estávamos chegando à cidade quando uma viatura da polícia mandou-nos parar. Foi um sacrifício, devido ao nervosismo e aos freios que não funcionavam bem. Havia necessidade de bombar o pedal diversas vezes até o óleo de freio alcançar os burrinhos de freio, quando alcançava, mas usava a redução através das marchas.

– Temos uma denúncia de que vocês furtaram madeira da construtora… – provocou o policial.

– Doutor, só pegamos umas toras que não serviam mais para a construção, porque vamos fazer um puxado para a patroa – falou o Antonio, todo explicativo também no gestual.

– Espero vocês na delegacia daqui uma hora – finalizou o agente.

Diferente do medo que as pessoas sentiam de mim, senti que até a C-10 ficou com medo, pois não queria mais pegar; tiveram que colocar um pouco de gasolina no carburador para ela desengasgar.

Passamos em casa e o Antonio falou do assunto para a patroa. Ela quase teve um troço, pois nunca teve nada com a polícia e coisa e tal. Descarregamos metade da madeira, por desconfiança de a perdermos totalmente. Chegamos à delegacia. O delegado perguntou um monte de coisa, menos sobre os documentos da caminhonete, graças a Deus. Mandou-nos devolver as madeiras no local que pegáramos. Antonio, todo nervoso, deixou o carro encostar  no muro, que teve algumas rachaduras. Ele não disse para o delegado, já com medo d’outra bronca. Aceleramos o carro, cumprimos a missão e fomos para casa. A patroa ficou feliz com nossa chegada e nunca mais reclamou do puxado para dar sombra para lavar as roupas de casa.

Voltamos às caçadas e pescarias, passatempos prediletos dos amigos. Eu sempre estava na carroceria, meu forte. Não me importava com a poeira das estradas em terra. Queria mesmo era sentir os cheiros das redondezas. Reparei que o tanque de combustível da caminhonete era um galão plástico que ficava na cabine, mesmo assim, insistiam em usar o GLP, pois era muito mais barato. Nem vou contar as peripécias, porque foram tantas que não daria conta, mas uma não vou deixar passar: dois dias de pescaria e já estávamos cheios de peixe e paca, quando o Carlão sugeriu mudarmos o cardápio para galinha, durante uma trucada. Opinião aceita e o sítio do vizinho foi visitado. Sem a honra da presença do dono. Duas foram as galinhas que tiveram os pescoços quebrados. Água fervente. Depenadas. Abertas e cortadas em pedaços. Cozidas e temperadas. Penas enterradas para não nos entregar. Vísceras aos peixes. As galinhas ao molho foram degustadas, à beira do riacho, ao sabor de caipirinha com limão galego. Um barco do Ibama subiu o rio, com o dono do sítio embarcado. Pareciam suspeitar de alguma coisa. Acenamos e convidamos para uma trucada, mas tinham coisas mais importantes a fazer.

Estava de butuca num canto da casa e num belo dia ouvi um papo que iríamos de mudança para Sumpaulo, mais precisamente Campinas. Não quis ir de imediato. Achava-me rural e não urbano. Foi uma correria para me pegarem e me alojarem na carroceria do pau-de-arara Mercedes-Benz cara chata, azul.

Saímos à meia-noite. Parecia mudança do dormiu e não amanheceu, para não pagar as contas. O motorista logo cansou e passou o volante para o Carlão. A chuva engrossou e a lona não cobria direito. Eu e mais dois humanos a dividir o espaço na carroceria, com a mudança, não havia jeito de não se molhar. O caminhão roncava mais do que barrão no cio. O Carlão soltava o caminhão na banguela. Dei uma olhadela no velocímetro e o ponteiro estava no km. Às vezes a chuva era tanta que os limpadores de para-brisa não davam conta de limpar e o motorista colocava a cabeça para fora para ver melhor. Veio-me uma saudade danada da C-10. Estava no olho da pintada. A pista era de mão única.

Paramos numa cidade para abastecer a condução e tomar café da manhã. Aproveitei para espreguiçar e fugir. Queria voltar para meu interior. Minha cidade querida. Depois de várias corridas, fui capturado e colocado na carroceria, agora com o incômodo de uma corda.

Campinas à vista. Vi que o Carlão entrou errado em alguns lugares, porque passei mais de uma vez no mesmo lugar. Se bem que nunca tinha visto tanta casa colocada uma em cima da outra, até parecia que iam cair. Tudo igual. Estacionamos num espaço da avenida e o Carlão ficou lendo os letreiros dos ônibus, quando passou um específico ele desbancou atrás. Chegamos ao bairro Campos Elíseos. Desci, espreguicei-me e dei algumas sacudidelas para espantar o frio, a água e alguns carrapatos.

Dois anos meus se passaram. Estava sentado próximo do Antonio, quando ele adverte:

– Totó, fique de olho nos moleques que vão apertar a campainha e sair correndo. Quero dar um susto neles.

– Au, au – respondi com minha frase predileta.

Montreal