Taques: de paladino da justiça a político de carreira
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Taques: de paladino da justiça a político de carreira

Fonte: Da Redação NMT
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Foto - Arquivo Pessoal

Foram quase 15 anos de Ministério Público Federal: passou um ano em Rondônia, três meses no Acre, nove anos em Mato Grosso e quatro na Procuradoria Regional da República, em São Paulo. Entrava para o Senado Federal, em 2010, até de maneira surpreendente, como um homem vindo do mundo das leis com uma oratória que tinha requinte, mas dentro do limite aceitável para se fazer entender pelo povo, sem deixar marca de prepotência. Alguém que, até então, parecia ter junto a habilidades intelectuais também bons predicados de inteligência emocional.

Taques tinha história para contar, dentre elas a prisão do bicheiro João Arcanjo, durante a Operação Arca de Noé, em 2003. Conseguiu vestir bem o personagem de justiceiro e seu discurso alcançou com competência o ouvido do povo de Mato Grosso. O mandato acabou sendo melhor que a encomenda, o senador recém-eleito rapidamente virou fonte de informação para a imprensa nacional, que confiava em cada detalhe explicado por aquele que sempre teve a Constituição dentro da cabeça e que em pouco tempo fez o mesmo com o regimento interno da Câmara Alta.

Com a capital do estado cortada de fora a fora pela promessa de um VLT, que consumiu mais de R$ 1 bilhão, mas o povo nunca pode ver andar, o cenário de devastação moral acabou por colocar no colo do então ‘político da moda’ no estado o comando do Palácio Paiaguás, em 2014. Apoiado pelas maiores lideranças políticas do estado, que entenderam o clamor popular, Taques iniciou uma gestão onde todos sabiam que pegaria terra arrasada, mas em meio as primeiras dificuldades eis que o já tucano deixou transparecer fraquezas pessoais, até então pouco conhecidas.

Sua aparente inteligência emocional, que tanto ajudou a abrir caminhos, mostrou não ter a mesma eficácia para gerenciar crises. Com o governo bombardeado por acusações de grampos ilegais de adversários, utilizando de estrutura pública, secretários presos e queda de braço com servidores, um cenário de intensa pressão fez com o que Taques ainda tinha de procurador ir sendo consumido pelo seu lado político, que cada vez mais tomava conta de toda sua personalidade. O homem que um dia disse que “decisão judicial não se discute, se cumpre”, agora não só discorda, como ataca juízes.

O senador que ‘nadou de braçada’ em meio ao turbilhão dos reflexos do mensalão e outros escândalos que faziam sangrar o governo petista de Dilma Rousseff (PT), que chefiava a república enquanto Taques era membro do Congresso, agora se viu do outro lado do balcão. O governador, por exemplo, classificou como “esdrúxula” a decisão do desembargador, Orlando Perri, que tirou do cargo seu então secretário de segurança, Rogers Jarbas, em setembro de 2017.

“Pior do que criminoso, é o magistrado que se vale do seu poder e ofende o princípio da imparcialidade (…) O magistrado deve se colocar longe das paixões, longe das investigações. Porque, senão, ele se compromete psicologicamente com a causa”, disse o governador, atacando pessoalmente Perri, na ocasião. Já em 2018, após o primo, ex-secretário chefe da Casa Civil em seu governo e ex-braço direito, Paulo Taques, ser preso pela segunda vez, acusado de participar de lavagem de dinheiro e desfalque de quase R$ 30 milhões dos cofres do Detran/MT, o atual governador novamente insinuou que a Justiça cometia equívocos de maneira direcionada e soltou a frase de que “estão querendo jogar o nome da minha família no lixo e isso eu não vou permitir”.

Mais recentemente, após a Comissão de Segurança do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJ-MT) suspender a escolta fornecida à juíza aposentada, Selma Arruda, que quer repetir o mesmo caminho de Taques e sair do mundo jurídico para o Senado Federal, Taques novamente deu de ombros para uma deliberação vinda da esfera judicial e acatou um pedido surpreendente de Selma, que solicitou que o Executivo Estadual bancasse o custo. Neste início de semana, o juiz da Vara Especializada da Fazenda Pública da Comarca de Sinop, Mirko Vincenzo Giannotte, suspendeu o despacho do governador e afirmou que só não afastou Taques do cargo porque na ação popular impetrada por um vereador da cidade, que permitiu a suspensão da escolta, isso não foi solicitado.

Enquanto muita gente fazia a leitura que Taques teria tido a atitude em favor de Selma por uma questão de corporativismo, já que via seu passado em Selma, quando também prendeu figurões no estado e via-se em risco, a visão de Mirko parece que foi mais precisa. Para o juiz de Sinop, a atitude do governador foi numa tentativa de aliciamento da ex-juíza, que vem crescendo em pesquisas de intenção de voto, para que ela faça parte de sua coligação visando as eleições de outubro próximo. Ou seja, para o magistrado quem agiu foi o político interessado e não o espírito de ex-procurador, que aparentemente não vive mais no curto corpo de Taques.