Sobre o teatro em Rondonópolis
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Sobre o teatro em Rondonópolis

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Dheisiel Barbosa - artor - 17-02-17Falar de Artes Cênicas em Rondonópolis, parece algo tão fantasioso quanto o mundo de Alice no País das Maravilhas. Mas há cada tempo que passa tem se tornado mais visível o trabalho de pesquisa, estudo e de investigação cênica que grupos de nossa cidade tem se dedicado. Rondonópolis, uma época atrás, foi polo de teatro, atuante no cenário estadual e nacional, nossa cidade já foi palco do Festival de Teatro da Federação Mato-grossense de Teatro, época que havia cerca de 10 grupos registrados nessa Federação, tivemos espetáculos que participaram de festivais nacionais de teatro como o espetáculo “Uma Professora Muito Maluquinha” do grupo ArtAtro.
Como é bom relembrar desse passado atuante que tivemos. Mas como é melhor falar do que está acontecendo nesses últimos dias no cenário teatral de nossa cidade.
Certa vez, assistindo uma entrevista da atriz e escritora Fernanda Montenegro sobre recursos para produção e montagens de espetáculos, ela com sua voz firme disse: “Cada um faz o teatro que pode.” Essa frase é a verdade de muitos grupos no Brasil e em nossa cidade é a realidade. As dificuldades não limitaram e nem limitarão o fazer teatral de agrupamentos artísticos. Grupos que se encontram em escolas, salas, quartos , cozinhas e salão de moradores, grupos que adaptam os figurinos por não obter auxílio, grupos que fazem dos projetos sociais espaços para ensaios e encontros, grupos que se encontram nas madrugadas para não ter que deixar seus afazeres diários e nem abandonar o teatro. Esses grupos têm invadido os espaços, becos, as praças, os corpos, as mentes. Grupos que fazem sem muita platéia, que de forma simples mas rica em afetos artísticos.
Nessas condições, vou citar alguns grupos e espetáculos que têm tomado visibilidade nesses últimos dias, como o grupo que começou em um projeto escolar e tem ganhado destaque no estado, a Companhia Dosoutros de Artes, que circulou alguns espaços com o espetáculo “Tamires”. Em um clássico infantil bastante conhecido, um grupo o transformou em um musical adaptado e produzido para todas as idades, o grupo Art’ Arteiros encenou “Chapeuzinho Vermelho” de uma forma que prende os olhos dos espectadores.
Falando ainda em clássicos o IFMT adaptou o musical “Saltimbancos” para os variados espaços, desde uma sala de aula até um palco de um Anfiteatro, dançam, cantam e atuam numa cidade onde as cabeças pensam não ter. Ainda do IFMT ganha destaque dois espetáculos: “Cartas a um Jovem Terapeuta” e “Meu Último Natal”. O primeiro discute o conflito de um jovem terapeuta que precisa tratar a si mesmo, esse conflito envolve seus questionamentos sobre o viver consigo mesmo e com a sua realidade.
Já o espetáculo “Meu Último Natal”, conflitua no palco a política de gênero, aceitação da sexualidade, e os questionamentos e significações de família na sociedade atual, isso tudo em um monólogo que acelera nosso coração. Não posso deixar de citar os muitos espetáculos da escola de formação artística que o Centro Cultural José Sobrinho se tornou, apresentou espetáculos infantis e adultos, ali tem se formado artistas para os palcos e para a vida.
Outro lugar de formação social e cultural é o Kobra que tem apresentado seus trabalhos de utilidade pública e de responsabilidade social, ali é um espaço de discussão dessas temáticas e assim levam aos palcos. Dentre esses destaques temos ainda o grupo que se encontra no SESC (abro aqui um parentese, o SESC é um grande apoiador dos grupos e artistas de nossa cidade, incluindo os espetáculos em seus projetos, trazendo oficinas gratuitas de formação e colocando o espaço cultural à disposição para ensaios abertos e utilização dos grupos) o Grupo Atoação se destacou com um espetáculo que encena a loucura e o amor, a lucidez e as razões de viver de uma mulher e sua bruxa interna. É o espetáculo Veneta. Todos esses grupos há pouco tempo de encontros já produziram o bastante para se destacar na arte de nossa cidade.
As companhias, grupos, espetáculos, artistas, coletivos, escolas e projetos sociais, a cada dia ganham força, mesmo não tendo força de quem tem “força” para ajudar. Eles vão “artevivendo” como diz o poeta, mesmo não vivendo da arte.
Vou findando este texto que descreveu um pouco do que temos de teatro por aqui (espero voltar para sugerir alguns caminhos que podemos seguir na arte do teatro). Volto a citar a frase “Cada um faz o Teatro que pode”. Nisso, vamos atuando nos espaços vazios, atuando nos auditórios escolares, atuando com o que temos em nossos guarda-roupas. Para fazer teatro precisamos apenas da platéia, que seja uma, que seja duas, que seja mil pessoas. Mas vamos nesse caminho, cantando, dançando, encenando, atuando… Atuando e andando… Sem parar. Não podemos parar. O teatro é o nosso oxigênio… Não podemos parar nunca. Com afeto. Com abraços cênicos.

(*) Dheysiel Barbosa – ator, diretor e produtor cultural

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