‘Quero servir de exemplo’, diz preso aprovado pelo Enem na UFMT
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‘Quero servir de exemplo’, diz preso aprovado pelo Enem na UFMT

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Detento (de boné) de MT passou no curso de educação física (Foto: Divulgação/CRC-Cuiabá)

Preso há quatro anos no Centro de Ressocialização de Cuiabá e condenado por homicídio, Kléber Azevedo dos Santos, de 38 anos, afirma estar arrependido do crime que cometeu e diz que quer mudar de vida. Ele foi um dos três detentos da unidade que conseguiu uma vaga na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) após terem feito o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) para Pessoas Privadas de Liberdade de 2015. No total, 86 reeducandos fizeram as provas.

Com a nota do exame, Santos conseguiu ficar em 2º lugar no curso de educação física. O sonho dele, entretanto, é fazer engenharia elétrica. Por isso, ainda está tentando uma vaga para a graduação numa instituição de ensino superior privada, por meio do Programa Universidade para Todos (ProUni). Caso não consiga, vai tentar também o curso de engenharia mecânica.

“Eu gosto de ler. Leio cerca de uma hora por dia. Li muitos livros didáticos e fiz o Enem porque gosto de me desafiar, queria saber como estavam meus conhecimentos. Tinha feito em 2012 e não passei. Em 2013 não consegui porque mudei de presídio. Em 2014, esqueci do prazo. Mas em 2015 eu fiquei bem atento para não perder a oportunidade”, contou.

Com medo de sofrer preconceito quando começar a graduação, o detento pediu para não ser fotografado. Santos está no CRC desde setembro de 2013, após ter sido transferido da Cadeia Pública do Capao Grande, em Várzea Grande, região metropolitana de Cuiabá, onde ficou 1 ano e 9 meses.

Foi na unidade da cidade vizinha que intensificou o gosto pelos livros, quando foi monitor de um projeto de remição de pena pela leitura. A transferência para o Centro de Ressocialização de Cuiabá foi feita a pedido do próprio detento.

“Eu sabia dessas oportunidades que eram oferecidas aqui para trabalhar e para estudar. Então pedi para vir para essa unidade, porque queria aproveitar essa oportunidade. A oportunidade é dada a todo momento. Quem quer melhorar, consegue. A cadeia oferece instrumentos para isso. Quero servir de exemplo pra outros presos”, disse.

O CRC oferece vários tipos de trabalhos diferentes para os presos, como marcenaria, ajudante de cozinha, artesanato e costura, entre outros. Também é ofertada educação formal, na modalidade Ensino de Jovens Adultos (EJA), que vai do ensino Fundamental ao ensino Médio e cursos profissionalizantes. Além disso, a unidade conta com uma biblioteca com mais de 300 livros.

Santos tem permissão para trabalhar fora da cadeia há dois anos. Há nove meses, ele faz serviços de manutenção elétrica na Secretaria de Estado de Justiça e Direitos Humanos (Sejudh). Disse esperar ter permissão de progredir de regime no próximo ano e acha que vai sair da cadeia com emprego garantido.

“Eu sempre fui trabalhador. Sou mecânico de máquinas pesadas. Trabalhei 20 anos com carteira assinada. Cometi um erro do qual me arrependo todos os dias. Não tem um dia que não penso nisso e não me arrependo. E acho que vou me arrepender pelo resto da vida. Mas quero mudar, não quero mais cometer os erros que cometi. É uma chance de recomeçar”, declarou.

Para a pedagoga do CRC, Marlene Silva, estudar e trabalhar são formas de cumprir, de fato, a ressocialização. “Nossa intenção é que eles possam ser reinseridos na sociedade e conseguir cursar uma faculdade é um caminho”, disse.

O diretor-adjunto do CRC, Silvio Roberto Alves, afirma que o desejo por parte dos detentos de querer melhorar de vida é fundamental. “Aqui damos as oportunidades, mas o preso tem que querer”, disse.

Pedagogia
Outro preso aprovado na UFMT com a nota do Enem foi Zaqueu Pinheiro de Carvalho, de 54 anos. Preso preventivamente no CRC há três anos, acusado de estupro, ele ficou em 15º no curso de pedagogia. Mas, ainda não sabe se irá cursar a graduação por causa do crime do qual é acusado.

O mandado de prisão de Carvalho é da Justiça de São Paulo. Em Mato Grosso desde 2010, ele trabalhou como motorista de caminhão antes de ser preso. No Centro de Ressocialização trabalha como marceneiro durante o dia e, à noite, faz crochê e tricô.

O detento disse que gosta de estudar e que o candidato, ao fazer o Enem, precisa acreditar em si mesmo e ter foco no que estão fazendo. “Tem que concentrar. Não é sorte. É ter confiança de que é capaz de passar”, afirmou. Carvalho contou que gosta de estudar e que isso o ajudou a crescer espiritualmente.

“Como não temos acesso a nada de fora, é preciso ocupar a mente e o corpo. Mas claro que nesse tempo aqui eu refleti sobre tudo que fiz. É uma oportunidade para isso e também para melhorar como pessoa”, disse.

 

Fonte: G1/MT

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