Por que a recessão continua mesmo com a melhora da confiança?
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Por que a recessão continua mesmo com a melhora da confiança?

Fonte: Do G1, em São Paulo
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Os índices de confiança do consumidor e dos empresários têm registrado melhora ao longo de 2016, embora ainda apontem um pessimismo com a economia. A retomada da confiança é um dos primeiros passos para a economia melhorar, mas o Brasil continua em recessão e registrou no terceiro trimestre deste ano a sétima queda consetiva do PIB, de acordo com dados divulgados nesta quarta-feira (30).

Entre o segundo e o terceiro trimestre de 2016, o índice de confiança do consumidor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e do IBRE passou de 67 pontos para 78 pontos, enquanto o indicador que mede a confiança dos empresários subiu de 73 pontos para 80. Apesar da melhora, os dois índices seguem abaixo de 100 pontos, patamar usado para diferenciar percepção de pessimismo e otimismo.

O resgate da confiança e da credibilidade é a primeira etapa para a recuperação da economia, mas especialistas ressaltam que o processo é lento e gradual. Eles dizem que a melhora das percepções sobre a economia não é suficiente para que as pessoas voltem a gastar e os empresários a investir. Para isso, é preciso que a renda também apresente uma tendência de melhora.
No Brasil, o desemprego continua em alta e a inflação segue acima da meta do Banco Central. André Perfeito, economista chefe da Gradual Investimentos, explica que, mesmo que as expectativas sobre o futuro da economia tenham melhorado entre os empresários e consumidores, a situação atual ainda não permite a recuperação da economia pelo consumo e pelos investimentos no curto prazo.

“O consumidor pode estar mais confiante, só que, com a renda real caindo, ele não vai consumir mais. Não tem renda para isso”, explica o economista. De forma análoga, o empresário pode até estar mais confiante, mas não vai investir porque a ociosidade da indústria está elevadíssima, pior que em 2008, acrescenta Perfeito. “O empresário vai investir quando conseguir ocupar a ociosidade, e para isso precisa de demanda.”

Thais Zara, economista chefe da Rosemberg Associados, aponta que “a gente teve, de fato, uma retomada da confiança até julho”, mas ressalva que “os entraves continuam”. “De medida que ajude efetivamente a economia a crescer, ainda não tivemos nenhuma. ”Momento atual x expectativas
Os apontadores de confiança são compostos por índices da percepção do momento atual da economia e de expectativas para o futuro. E, nem sempre, eles evoluem da mesma maneira. De janeiro a setembro deste ano, o índice que mede as expectativas dos empresários foi de 72 pontos para 90, enquanto o indicador dos consumidores foi de 67 para 90. Já a percepção sobre o momento atual melhorou menos no mesmo período. Para os empresários, o índice foi de 69 pontos para 74 e para os consumidores, de 67 para 68.

Aloisio Campelo, superintendente de estatísticas públicas da FGV/IBRE, explica que é comum um “descolamento” em momentos de recessão. “Quando você começa a ter sinais de que a economia vai melhorar, as expectativas sobem mais rápido que o índice da perpepção situação atual. ”

“O que nós temos nesta recessão é que, como está sendo muito longa, todos os índices foram lá para baixo, bateram recorde de pessimismo em relação ao futuro e de satisfação em relação ao presente”, analisa Campelo.
“Nesses últimos meses, as expectativas avançaram mais rápido do que a economia parecia estar sugerindo. Parecia um choque de melhora com a redução do pessimismo, mas ainda há muita incerteza. O impacto de um choque de melhora como esse ocorre entre 2 e 3 trimestres à frente”, explica o especialista.Confiança ainda não melhora vendas
A empresária Sonia Frausto, sócia proprietária da empresa de Tecnologia da Informação OAF Info, confirma que as perspectivas para seu negócio são de melhora, mas aponta que ainda não foi possível sentir os efeitos no faturamento. “Os meus clientes estão todos aqui, o problema é o dinheiro. Os gerentes de TI das empresas têm todas as perspectivas e projetos, fazem toda a dinâmica do investimento, mas são barrados quando chegam no setor financeiro”, reclama.

“Nós temos muitos projetos em andamento só aguardando a verba”, diz Sonia. “Eu acredito que em 2017 vai melhorar porque essa espera já se estendeu pelo ano inteiro. As empresas não vão mais ter como segurar, vão ter que investir. Quem tinha que fechar já fechou.”

Marcelo Macedo, sócio e consultor da empresa de estratégia em design Tangerina, também fala em melhora das perspectivas e aponta dificuldades. “Houve uma freada brusca, assustadora. Projetos foram cancelados, propostas foram revistas, orçamentos foram realocados”, conta o empresário.

“Agora, meus clientes já estão começando a conversar comigo sobre novos projetos. Mas, obviamente, devagar, não na velocidade que a gente gostaria.”

Macedo afirma, no entanto, que está “sentindo a melhora que esperava”. “No meio do ano, o número de propostas caiu 50% em relação ao ano passado. Neste momento, ainda está menor que 2015, mas a diferença já é mais baixa.”

Como consumidora, Sonia Frausto afirma que não sentiu a economia melhorar. Ela pretendia comprar de carro, mas continua adiando a decisão de compra.

“Ninguém consegue fazer um financiamento, os juros só aumentam”, reclama. Já Macedo afirma que “o nível de incertezas é menor”, mas afirma que ainda é um componente importante nas suas decisões de consumo.

 

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