Pesquisadores desenvolvem estudo para proteção das funções renais em procedimentos cirúrgicos
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Pesquisadores desenvolvem estudo para proteção das funções renais em procedimentos cirúrgicos

Fonte: Assessoria
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Mato-grossenses são responsáveis pelo estudo que revelou que o pré-condicionamento isquêmico (PCI) – uma espécie de “treinamento de interrupção do fluxo sanguíneo” – é capaz de proteger as funções renais em procedimentos como transplantes ou cirurgias oncológicas mais complexas. Isto, envolvendo a retirada parcial do órgão.

Com a descoberta, os riscos de lesão dos tecidos diminuem, o que pode evitar a perda futura do enxerto ou de a necessidade de hemodiálise. Os resultados são animadores e foram apresentados durante o Congresso Anual da Associação Americana de Urologia, Educação e Pesquisa (AUA), que ocorreu este ano, em Boston, nos Estados Unidos. O estudo foi um dos 60 selecionados entre trabalhos de todos os lugares do mundo para apresentação na sessão de “Transplantes” do evento.

De acordo com o médico urologista do Hospital Santa Rosa, Valter Torezan, um dos responsáveis pela pesquisa, muitas cirurgias envolvendo os rins exigem o “clampeamento” (o bloqueio) da artéria e da veia para evitar sangramentos durante o procedimento – como é o caso, por exemplo, da Nefrectomia Parcial, em que há a necessidade de ressecção tumoral. Contudo, o cirurgião precisa ter expertise e rapidez para reconstruir o órgão em um período máximo de 25 a 30 minutos.

“Esse é o prazo ideal para a manipulação segura do rim ‘clampeado’ de modo que evite perda de função. Ao buscar novos métodos, desenvolvemos a aplicação da técnica de PCI que, em nosso estudo, consistiu em fazer três breves períodos de isquemia (de 3 a 5 minutos) anteriormente ao período mais longo, que passou a alcançar 45 minutos com uma hora de reperfusão (processo de liberação do fluxo sanguíneo)”, explica Valter.

O urologista complementa que esse processo é similar ao pré-condicionamento físico praticado por um atleta perante uma competição. “Imagine: você quer correr uma ‘Corrida de Reis’, mas vai sem treinar. Já, outra pessoa, treina bastante e participa da mesma atividade. Resultado: ela irá sofrer menos. Na medicina, não é diferente. Aliás, na vanguarda desse procedimento está a cirurgia cardíaca, que já pesquisa o pré-condicionamento isquêmico há mais tempo”, comenta.

No Brasil são diagnosticados aproximadamente sete mil novos casos de câncer no rim a cada ano, o que representa 2-3% das neoplasias malignas em adultos. Ao contrário do que a maioria das pessoas imagina, existem vários tipos de câncer no rim e a doença atinge principalmente homens com idade entre 50 e 70 anos. O tratamento depende do estado clínico do paciente, do tamanho e da extensão da lesão, mas a remoção cirúrgica é a principal solução para o problema.

“Cerca de 70% desses tumores são incidentais. Ou seja, você está com uma dor na barriga e, por acaso, faz um ultrassom. Nele, descobrem um tumor. Muitas vezes, ele nem tinha ligação com a dor. O aumento do número de exames que estão sendo pedidos atualmente fez com que esses tumores sejam descobertos ainda pequenos – com menos de 4 cm. Esta descoberta permite, na maioria das vezes, que se retire apenas o tumor, sem perda de função”, explica o urologista.

ESTUDO – Durante o estudo de pré-condicionamento isquêmico, que foi desenvolvido em parceria com o curso de Química da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e o auxílio da professora Nair Honda, três grupos de animais (ratos) foram divididos para verificar os possíveis benefícios da prática – sendo um sem nenhuma intervenção prévia e “clampeamento”; e outros dois com “clapeamento”, mas um com pré-condicionamento.

“Percebemos que os resultados daqueles que não tiveram o ‘treinamento’ prévio não foram tão satisfatórios quanto aqueles que tiveram – que, por sua vez, se assemelharam aos resultados daqueles que não tiveram o órgão ‘clampeado’. O pré-condicionamento preparou-os de forma satisfatória ao período mais prolongado de isquemia. Não houveram diminuições renais, nem lesão. Isto, se comparado com esse grupo sem ‘clampeamento’ intermitente”, ressalta Valter.

Também participaram da pesquisa Cervantes Caporossi, Rafael M. Assis, Maísa P. dos Santos Elias, Thiago R. Jaudy, Luiz F. L. A. Molina, Rafael D. R. do Amaral, Felipe de S. Bouret, Amanda M. Baviera, Damiana L. P. de Souza, João H. A. Cassaroti, Gabriel S. de Lima, Nicolle G. H. Seraphim, Thulio F. de Souza, Maikon A. Ticianel e Claudia B. de Lima.

CONGRESSO AMERICANO – “O Congresso Americano é um dos mais conceituados e criteriosos. Quando enviamos o trabalho, não tínhamos ideia se um estudo latino seria aceito. Associá-lo à área de transplantes é um dos nossos grandes motes. Nesses procedimentos, você tem um período para ‘clampear’, retirar o rim da pessoa – que está anestesiada em operação – e finalizar. Quanto maior o tempo de isquemia, maior o tempo de sair o órgão do doador para ser implantado no receptor”, comenta Valter.

Ele explica que essa avaliação de tempo está associada à perda da função renal. Inclusive, neste período, por causa da interrupção do fluxo, pode ocorrer necrose em alguma parte do órgão e ele não conseguir desempenhar sua função primordial de filtrar – e, com isso, o paciente pode acabar perdendo esse enxerto (transplante) ou, em certos casos, perdendo a função do rim solitário.

“Em alguns casos, mesmo tirando o rim, o outro funciona bem. Já, em outros, que o paciente não tem ambos e opera, por exemplo, de um câncer, um tumor pequeno, e tiramos apenas um pedaço do rim, conseguindo manter 3/4 do órgão, um tempo muito grande de isquemia pode resultar na morte de parte do rim. Logo, se de alguma forma conseguirmos que esse órgão remanescente permaneça funcionando normal, o paciente não irá para hemodiálise”, contextualiza.

Parceiro no estudo, o diretor médico do Hospital Santa Rosa e coordenador do Programa de Residência da Instituição, Cervantes Caporossi, é preciso pensar no futuro. “Este trabalho é de extrema importância. Apesar de ter sido realizado em animais, ele tem essa visão de aplicabilidade na parte clínica. Inclusive, no Congresso, o estudo não foi apenas aceito, mas ganhou destaque com uma apresentação oral”, pondera Cervantes.

TRANSPLANTE RENAL – Segundo dados da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO), no Brasil, foram realizados 5.512 transplantes renais em 2016. Mato Grosso está entre os cinco estados brasileiros que não realizam transplantes de rim, apesar de já ter sido habilitado para este procedimento. Em 2009, no entanto, perdeu a autorização para realizar as cirurgias e até o momento não conseguiu aval do Ministério da Saúde para retomar os trabalhos.

 

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