O serviço de abordagem social
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O serviço de abordagem social

Fonte: George Ribeiro*
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Foto: Arquivo pessoal.

Confiança não é algo fácil de se ter nas relações comuns em nossa realidade cotidiana. Agora, imagine para aqueles que se encontram isolados por motivos diversos, tais como traumas familiares, desemprego, drogas etc. Essas pessoas encontram o refúgio nas ruas, tornam-se alheios, distantes de qualquer tipo de vínculo, invisíveis a maioria da população, e, quando são reparados, geralmente é porque já frustraram os transeuntes, os comerciantes, a fantasia da sociedade que os nega, enfim… um submundo monocromático.

Entra nesta conjuntura a importante influência do Serviço de Abordagem Social. Este trabalho é realizado em locais públicos em que se tenham um histórico de concentração de pessoas vivendo nas ruas. O desafio dos trabalhadores nessa ação é justamente encontrar o elemento que conecte essa população vulnerável a um contexto social saudável e inclusivo.

É importante esclarecer que a Abordagem Social está dentro do Serviço Especializado para Pessoas em Situação de Rua que, por sua vez, está inserido na Proteção Social Especial de Média Complexidade. É política pública expressa na Tipificação Nacional de Serviços Socioassistenciais, portanto é direito garantido aos usuários. Durante a ação, basicamente a equipe de abordagem se aproxima da pessoa no propósito de ser um elo que venha resgatar os vínculos de confiança e, a partir de então, oportunizar o sujeito a se inserir nas políticas sociais as quais ele (ainda) tem direito.

Apesar das garantias legais, o trabalho com essa população ainda é alvo de alguns equívocos e preconceitos. Quando criança escutei (e neste momento de redação escuto) a canção do grupo Nenhum de Nós chamada “Jornais”. Tenho por efetiva lembrança de ter sido por meio dela o primeiro sentimento e visualização de um ambiente de abandono nas ruas.

Entre outras experiências, penso ser difícil que alguém escolha uma calçada como leito sem que isso seja um forte indicativo de necessidade de encaminhamento à Rede de Proteção Social. A exemplo da canção, que é informação, que se compactua com as políticas sociais, a interdisciplinaridade é fundamental neste empenho no tocante à inserção respaldada nos serviços públicos de saúde, educação, cultura, afins. Essa oportunidade o Serviço de Abordagem fomenta nas ruas, possibilita o acesso.

Assim como existe o senso comum a afirmar que a criança que trabalha se torna adulto que dá valor ao dinheiro – contrariando uma linha de pesquisa que diz ser esse um estímulo para a exploração sexual e tráfico de drogas – existem também quem afirme que moradores de rua estão lá porque querem. Isso não é verdade, apesar de existirem algumas exceções. É por isso que a equipe de abordagem deve estar qualificada, esclarecer o seu papel e ser persistente ao tecer os fios no enlace com o sujeito sem deixar de respeitar suas próprias escolhas.

O psicanalista Jorge Broide afirma que em alguns casos a rua é um elemento que já prendeu a si o indivíduo que encontrou nela seus próprios laços. Por outro lado, a burocracia atrapalha a retomada destes indivíduos ao seio social, como ocorre com egressos do sistema penitenciário que precisam pagar suas multas, fiscal e penal, para efetivo saldo de pena. Assim, o sistema sem oferecer a isenção empurra os sujeitos a “clandestinidade” e, sem o devido acesso a documentos e trabalho, consequentemente – excluindo o retorno à criminalidade – a melhor das hipóteses é mesmo a mãe rua.

Com o Serviço de Abordagem Social funcionando é possível um diagnóstico social que possibilite uma melhor compreensão acerca das características dessa população no território. Logo será possível constatar o que já é esperado: a maioria quer moradia, quer trabalho, reinserção social, quer oportunidade de expressão, tratamento, acesso, quer vínculo de confiança… cor e canção. “A calçada não é cama, não é berço, não é nada. Nada mais nos faz humanos sem afeto e o medo é um abraço tão distante de quem fica”.

*George Ribeiro é rondonopolitano, ativista social, servidor da Rede Estadual de Educação e agente na Secretaria de Assistência Social de Rondonópolis.

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