O optometrista e sua “Margarida”
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O optometrista e sua “Margarida”

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O optometrista e sua “Margarida”

Peguei a minha “Margarida”, com sua alça de caixão de defunto, uma mochila com uns pares de roupas e fui parar no Mato Grosso. Cada dia que passava eu me adentrava no estado continente, e, a cada cidade nova, descobria que ficava mais longe do Brasil, não no pé da letra, mas de um tudo que faltava e de um tudo que se dava um jeitinho.

A “Margarida” tinha tudo que eu precisava para fazer os exames de vista. Tudo foi produzido por mim, desde a régua até a própria “Margarida”, que era uma maleta, onde aproveitei uma alça anatômica que facilitava o manuseio.

Ficava pouco tempo nas cidades, algumas até eram bem receptivas, outras tinha interesses do mais diversos contra mim. Diziam que eu era charlatão, que não tinha diploma, que não pagava os impostos, que era tudo de mentira, mandavam os fiscais da prefeitura me abordar, tive até que sair nos tapas com alguns e parar na delegacia. Lá, os delegados agiam também de acordo com a distância dos brasis, ora era instruído, educado, fino e pedia para eu mudar de lugar, porque a coisa estava ficando insustentável, noutras o tratamento era rude, e geralmente saía do órgão público direto para a rodoviária.

Sei o tanto que ajudei as pessoas a enxergarem melhor. E, também sei que comecei a enxergar melhor o meu país. Não é uno, não é par, mas totalmente desigual, como que em cada cidade houvesse leis diferentes, ou o entendimento da forma que fosse interpretada a favor das oligarquias, poderosos, grupos e incitavam o povo a me escorraçar, e se eu não fosse ligeiro, teria tomado mais sopapos que os que tomei.

Agora, com meus 40 anos de optometria, nesse mundão de meu Deus, fico imaginando o quanto que fui ousado em acreditar na minha profissão e os riscos que corri. No entanto, o que me alegra mesmo é está aqui num mutirão social, ajudando as pessoas a verem melhor o nosso mundo, e estou doando o meu trabalho de forma graciosa, porque recebo um sorriso também gracioso, quando coloco as lentes ajustadas no rosto de uma pessoa, que não teve esse contentamento por muitos anos, por falta de recursos financeiros, que ora conseguimos ajudar nesta conquista.

Faria tudo de novo, e não teria medo de sair correndo, com minha “Margarida” na mão, talvez para outra cidade, em busca do meu sonho de fazer o bem, mesmo que os parcos recursos que recebia não pagava a contento tanto sacrifício, porque lá na frente alguém iria enxergar melhor.

18.2.18