Minha eterna professora, Dona Carmen
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Minha eterna professora, Dona Carmen

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Minha eterna professora, Dona Carmen
Hermélio Silva – 13.1.18.

Minha eterna professora. O primeiro argumento que comecei a esboçar na cultura deveu-se a ela. Rígida, segura, autoritária, enérgica, durona… faltam adjetivos. Uma verdadeira sargentona. Todos nós, alunos, a temíamos. Era uma boa desordem, bem organizada por ela. Alunos de várias séries, estudando ao mesmo tempo, num mesmo local, no mesmo horário.

Só ela daria conta disso tudo. A escola era localizada em frente à casa do João Fernandes, na avenida Santo Antonio, esquina com a rua Otávio Manoel dos Santos, era um clube, no passado daquele passado. Eu participei da mudança da escola anterior, que ficava na rua da residência da professora, bem próximo da sua casa, só que do outro lado da rua, rua de paralelepípedo. Apinhados, frequentes e assíduos estávamos lá, pela manhã cantando o hino nacional e ouvindo suas preces. Depois era aula de verdade. Eu pertencia à turma que ia prestar a famosa Admissão, um intervalo entre o primário e o ginásio, tipo um vestibularzinho. Não me lembro dos nomes dos colegas de classe, mas a turma mais avançada e mais velha era a nossa. Um colega, sempre saía no intervalo para comprar pão, quentinho, na padaria do Seu Pepê. E, escondido dentro de umas pastas flexíveis, fechadas com zíper, rasgávamos pedaços de pão para comer, durante a aula. Algumas vezes fomos surpreendidos pela Professora Carmen, que nos dava uns sopapos, ou palmadas, com um instrumento de madeira, com aquele seu jeitinho “coice de mula”. Bom, isso era comum à época, não nos estressava ou deixava com sequela psicológica, pois ainda me considero lúcido, que até estou me lembrando disso tudo.

Havia conquistado a afeição da Dona Carmen, e ela me deu autorização, sem nada falar sobre isso, para tomar a lição dos alunos menores, com suas tabuadas, cartilhas e abecês. Tenho dúvida se dei alguns coques nos meninos, mas vou ficar com o benefício da dúvida. Considerava-me um ajudante de ordens dela, até o dia que esqueci a minha lição sobre adjetivos e ela me puxou pela orelha, depois me empurrou e bati a testa no quadro verde, também não me lembro de quantas vezes que minha testa se encontrou com aquela peça, mas o pior foi ficar vermelho de vergonha, com um calombo na fronte, e porque eu me achava, sendo que até os meus ditos alunos me olhavam com um sorriso sarcástico de canto da boca. Sei que não devia, no entanto tenho certeza que multipliquei aquele castigo por dez e socializei aos meus subordinados, dias depois, uma vez que tinha vergonha de olhar para a mestra, e quando fazia ela me fulminava com aqueles olhos negros, que mais pareciam balas de fuzil, com a espoleta acionada, que diziam: “filho, acreditei em você e me decepcionou”. Claro que, ao chegar a minha casa com a orelha vermelha, tomei uma boa surra da minha querida, protetora e onisciente mãe.

Alguns dias se passaram, mas o sermão da minha mãe continuava, sem fim, com a promessa dos galhos de fedegoso, que eu bem conhecia. Dediquei-me mais aos estudos, cumpri todas as tarefas que me foram atribuídas, com o maior zelo da vida, e voltei a conquistar a confiança da dona Carmen, pois continuei a corrigir as tarefas dos guris mais novos, por ordem dela, sem de fato falar qualquer coisa para isso. Fui fazendo, e por ser muito pobre e muito magro, acho hoje, que ela me protegia, mas havia inúmeros meninos como eu, por ali.

Um dia do ano de 1969, dona Carmen fez o discurso que nunca esquecerei. Avisou-nos da morte do presidente do Brasil e que já tínhamos um novo presidente com um nome que ela nos informou, que eu achava que não era do nosso país, porque era muito complicado. Nada entendi da mensagem, mas o jeito que ela disse isso me conquistou. Eu tive a coragem de falar isso para ela, com muito medo no coração, mas acho que foi o dia que a conquistei de verdade, porque fui envolvido pelo assunto e pela segurança como ela fez o pronunciamento.

Aos domingos, como eu era coroinha, ficava olhando para o meu lado à esquerda, onde ficava o órgão musical, e que nalgumas vezes a minha predileta professora tocava, ou ficava com outras pessoas, no coral, ou apenas sentada ali. Procurava ficar sempre do lado direito do padre, para ficar longe da professora, porque ela me olhava com uma certeza absoluta de que eu comia as hóstias, na sacristia. Não tinha medo do padre, do São José, de Jesus, mas o olhar da professora me assustava, e cheguei a confessar sobre o pão consagrado e subtraído para o padre, e ele me penitenciava com alguns pai-nosso e inúmeras ave-marias, o que fazia com muita paz, porque me aliviava. Conseguia olhar nos olhos da professora no outro dia, pela manhã.

Um dia, eu assisti uma senhora, esposa de um dentista que o nome me foge, e mãe de dois colegas da escola, fazer um discurso, para ser veiculado na Rádio Nacional. Foi o acontecimento do mês na cidade. Depois eu ouvi o pronunciamento dela pelo nosso radinho de pilhas. Lembro-me muito bem que foi gravado, ou ao vivo, não sei ao certo, no cais, na beira do Rio São Francisco, e se a memória não me foge, tinha uma daquelas barcas maravilhosas movida a diesel, que era a navegação usada para as autoridades que desempenharam aquela demanda para o Brasil. O assunto era educação.

Também tive a coragem de falar sobre isso com a Dona Carmen, e num belo dia ela me escolheu para fazer um discurso, num evento em que estariam os pais dos alunos. Levei o papel para casa e li, reli, reli novamente e mais algumas vezes. Já sabia de cor e salteado o texto. Trêmulo e suando frio, li o discurso na frente de todos e nunca saiu da minha cabeça a última frase do discurso: “Tenho dito”. Ademais, não me lembro de mais nada, nem do assunto.

Conquistei definitivamente a afeição da mestra, mas descobri que o meu forte não era o dom da oratória. E acho que ela também, porque me empanturrou de textos para eu ler e interpretar. Eu tinha um livro chamado de “Programa de Admissão”. Era tudo que eu queria, porque ali falavam de tudo, todas as matérias. E eu me encantei, e acho que o li todinho. Adorava quando dona Carmen demandava sobre ele, e o que parecia era que ela sabia de tudinho que estava ali dentro.

Dona Carmen, num gesto incomum, só dela, falou comigo sobre Deus, quando lhe indaguei sobre a sua onipresença. Ela me falou que Deus sabia de tudo, mas era para eu não ficar atrás da porta me perguntando sobre isso, porque as respostas eram mais complexas que as perguntas e eu poderia ficar doido. Entendi logo e tratei de ficar na superfície da bíblia, mas lendo principalmente Mateus, porque o texto me chamava a entrar na história e isso era bom. Dava para interpretar e entender com facilidades. Quando um dia ela me falou:
– Filho, leia Corintios, capítulo treze, versículo treze.

Li e ali eu vi o verdadeiro sentido do amor. Foi o menor texto que ela me incumbiu em todo o tempo, mas foi o mais forte para mim, até porque ela começou a frase com uma forma de tratamento de carinho e um importante substantivo, que me emocionou.

Dona Carmen, sei que está ao lado de Deus, mas eu amei – na maior expressão da palavra – tudo que fez por nós neste planeta terrestre, e pediria para a senhora fazer tudo que a senhora fez por todos nós, e, para mim tudo, mas exatamente tudo igual ao que a senhora me ensinou, em toda a sua concepção, se lhe fosse dada a oportunidade de nos ensinar, educar e encantar, novamente.
Tenho dito!