Luiz Fernando: volante tricolor que encantou a Europa e admira Malcon X
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Luiz Fernando: volante tricolor que encantou a Europa e admira Malcon X

Fonte: Hector Werlang
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Dentro de campo, um jogador que prima pelas poucas faltas, muitos desarmes e rápida saída de bola. Fora dele, um leitor fervoroso, admirador da história de vida de Malcon X (um dos maiores defensores no nacionalismo negro nos Estados Unidos), mas que também encontra tempo para a diversão no videogame. Este é Luiz Fernando, 22 anos, a mais nova promessa do Fluminense. Lançado por Abel Braga no clássico de domingo, entrou no campo do Nilton Santos no momento em que o Vasco pressionava. Fez o que o treinador pediu e, com a ajuda dos companheiros, ao controlar Nenê e Andrezinho, reequilibrou o confronto, que seria vencido por um incontestável 3 a 0. Mostrou um pouco das qualidades que encantaram a Europa e fizeram a direção torná-lo uma das apostas no processo de reformulação do elenco.

A história de Luiz Fernando nas Laranjeiras começou há 11 anos, porém, passou a mudar em 2 de dezembro de 2016. Na entrevista coletiva de apresentação de Abel Braga como técnico do Flu, Marcelo Teixeira, gerente da base, fez questão de um aparte: anunciou que o atleta, após empréstimos ao Vila Nova-GO e Samorin, seria o primeiro jogador do projeto Flu Europa a ser integrado ao profissional – apesar das propostas de outros clubes do Velho Continente.

– Foi capitão e líder do time campeão brasileiro sub-20 em 2015, é um atleta exemplar. Na Europa, acabou considerado como o protótipo do volante moderno. Só saberemos se desenvolverá seu futebol depois, mas tem a nossa confiança – disse o dirigente.

Pois 59 dias se passaram e foi possível ter uma ideia. Nos 26 minutos em que esteve em campo, cometeu apenas duas faltas. Desarmou adversários duas vezes e deu um lindo lançamento a Gustavo Scarpa. Saiu do estádio elogiado pelo comandante e com a certeza de dever cumprido.

– Fiquei
feliz pela estreia, em um clássico, contra grandes jogadores.

Não deu muito tempo, dada a circunstância do jogo, com o Vasco
pressionando, de mostrar todo o meu futebol. Mas é marcação e saída rápida ao ataque.
Tenho um bom pulmão, consigo proteger a zaga e sair em velocidade. Agora, claro, tenho muito a provar – contou o atleta, em entrevista ao GloboEsporte.com, em sua casa, acompanhado da noiva Ana Carolina.

Na conversa de quase 35 minutos, Luiz Fernando, carioca da Pavuna, falou sobre o começo da carreira, a passagem pelo futsal, relembrou o título brasileiro sub-20 em 2015, a eleição de melhor volante da Eslováquia, a necessidade de pagar 100 euros na caixinha do clube, o erro que cometeu em 2015 na primeira chance no profissional e contou seu sonho para o futuro. Confira!

Como e por qual motivo você decidiu ser jogador de futebol?Na verdade, não decidi. Havia um projeto, o Projeto Zico. Eu
jogava no Pavonense Futebol Clube. Houve um torneio, e o meu treinador me
convidou. Ele via potencial em mim. Perguntou se eu não queria disputar esse
torneio. Fiz um gol. Acabou despertando o interesse do Projeto Zico. E, a
partir dali, as coisas começaram a funcionar. Isso foi em 2006. Eu não tinha
ideia alguma do que iria ser o futebol. Para mim, era uma brincadeira. Eu
contava os dias na escola para poder ir treinar no projeto. Ali eu passei a
jogar o futsal seriamente. Era o Rio Futsal. Depois, Maran, Marechal Hermes, Bangu.
E aí rolou o primeiro convite para fazer um teste no campo, no Nova Iguaçu. Ali
eu comecei a entender o que era futebol. Ali eu percebi que tinha talento,
todos estão vendo… pensei que poderia seguir na carreira e ser jogador de
futebol.

 

Você se expressa muito bem… como foi a sua formação?Eu terminei o Ensino Médio. Eu sempre fui… a rapaziada
fala que eu gosto de ser um cara culto. Pessoal pega no pé, tira sarro. Eu
tenho isso de tentar sempre falar bem. Em 2013, eu fui a uma Copa São Paulo de
Futebol Júnior. Estava eu e minha noiva Carol no shopping, meu pai sempre falou
do Malcon X, um dos líderes que revolucionou a raça negra. Então, no shopping,
ao passar por uma livraria, vi um livro dele. Quis comprar. Eu cheguei no
ônibus, com o livro e todo mundo falou: “Valeu, negão”, “você é um negão
diferente”. Ficaram me zoando até hoje. Eu li esse livro, depois pulei para o
Mandela e assim vou me atualizando. Eu mantenho o hábito de leitura, peguei
isso com o Luiz Guilherme, que jogava no Botafogo. Ele concluiu a faculdade de
psicologia. Não parei para pensar no futuro, foco bem no presente.

 

Por favor, se apresente ao torcedor.Eu sou um jogador que gosta de antecipar os marcadores.
Tenho um timing certo, carrego isso desde o futsal. Gosto de ser um líder, na
base era o capitão da equipe nos juniores e no infantil. Carreguei isso de
comandar, de chamar a atenção dos companheiros. Uma coisa que venho
aperfeiçoando é tentar ser um volante moderno, chegar bem ao ataque. Durante o
um ano e meio que fiquei emprestado, rodando, consegui fazer bem isso tanto no
Vila Nova-GO quanto no projeto do Fluminense.

 

Mas no título brasileiro sub-20, em 2015, você atuava mais recuado, liberando os avanços do Douglas…Sim, sim. Eu tinha uma visão… meu pai puxava a minha
orelha, que eu jogava muito para os lados e não verticalmente. Dali eu tive um
choque. Gostava muito na época do futebol do Douglas, é um volante que vai dar
o que falar. Eu pensei que se tivesse a oportunidade de mudar o estilo de jogo,
tinha de mudar. Naquele ano, eu segurava mais, era o 5 mesmo. Protegia a zaga e
deixava o Douglas sair bastante.

 

Como surgiu a chance de ir para a Europa?Eu estava com poucas oportunidades no Fluminense em 2015.
Houve o interesse do Vila Nova-GO em 2016. Eu cheguei lá com outro pensamento
de jogo. Foi engraçado, no clássico contra o Goiás, o treinador disse que eu
jogaria de meia. Eu achei estranho, estava do lado do Fernando Neto, que disse
para eu ficar quieto. Ali, me deu o estalo. Fui muito bem na partida. No jogo
anterior, havia feito gol de fora da área contra o Luverdense. Falei que eu
tinha qualidade, que estava me aperfeiçoando, sendo um volante moderno, com
chegada à frente. Depois, recebi uma ligação do Marcelo Teixeira, falando do
interesse do projeto Flu Europa. No começo fiquei meio assim, mas hoje falo com
toda a certeza de que teria ficado incomodado e triste se não tivesse ido. Iria
me arrepender muito. É um projeto incrível. A pessoa que teve esse
entendimento… isso deveria ter em todos os clubes. Fui para a Europa achando,
buscando toda a positividade possível. Dentro de campo, nas ruas. Observava
muito, como o europeu lidava com as coisas. Isso foi muito positivo.

 

Esse período fora serviu também como autoconhecimento.Costumo dizer que estava longe e, ao mesmo tempo, perto.
Estou no Fluminense faz 11 anos, mas quando estive na Europa vestia a camisa do
Fluminense. Sempre estive perto. Ao chegar no vestiário e ver a camisa do
Fluminense, poxa, não tinha o que temer. Ao estar longe, costuma-se focar mais
no trabalho. Eu olhava muitos vídeos em casa de jogadores referências, como Nainggolan,
da Roma, um belga que marca com a mesma disposição de chegar ao ataque. Então,
estudava bastante os jogadores e tentava colocar em prática em campo. Também
cresci fora de campo, conheci outros países, com 22 anos.

 

Quais lugares?Conheci Viena, Budapest. Não fui a Praga, mas ainda pretendo
ir. Ia na folga. A gente jogava no domingo, folgava na segunda. A reapresentação
era só na terça à tarde. O Fluminense disponibilizou carro a quem tinha
habilitação. Eu tinha. A gente reunia a galera que gostava de fazer isso. Era
um passeio legal. Me chamou a atenção a tranquilidade. As coisas acontecem lá.
No nosso país, é mais complicado. Espero que possa melhorar.

No Flu Samorin, o idioma é o inglês. O clube ofereceu aulas aos estrangeiros, certo?Sim, fiz aulas. Não sabia nada ao chegar. E sempre tinha a
zoação do pessoal ao errar algo. Fiquei feliz com o que aprendi. Fiquei poucas
vezes em apuros. Das poucas vezes que fiquei só, consegui comprar ou fazer
perguntas. Achei muito interessante o Fluminense dar a aula. Foram cuidados com
os atletas. Ao voltar para o Brasil, se esquece um pouco. Passei a assistir
séries para não deixar se perder. Até tento falar com a minha noiva.

 

E o eslovaco?Esse é complicada, eles falavam muito rápido. Essa vai
demorar a aprender. Aprendi o dobrý deň (olá) e dobré (muito obrigado). O gol, para mim, era gol. Eu comemorava da mesma forma.
Não foi fácil aprender. Eu ficava repetindo, ficava ao lado do Csaba Kralík, um volante que jogava
comigo. Perguntava como se dizia isso e aquilo. Acabei pegando. Demorou
bastante. Foi muito bom.

 

Se o Flu ficou satisfeito com o rendimento a ponto de querer seu retorno, também houve reconhecimento na imprensa eslovaca. Você foi eleito o melhor volante do país pelo jornal Sport.Lá, eles têm um costume de que quando você sai no jornal tem
de pagar a caixinha. É a regra deles. Eu saí bastante no jornal lá. Fiz
bastante gol. Quando saiu essa matéria, perguntei o que fazia ali. Achei que
estava errado. Mostrei ao diretor. Ele falou que eu tinha sido eleito o melhor
jogador da posição, entre as três divisões. Fiquei feliz, achava que ninguém estava
olhando pois não via nenhuma câmera. Acabou que tive um reconhecimento,
parabenizo o Fluminense pelo projeto incrível.

A caixinha lá, então, diferentemente do Brasil, com caráter punitivo, cobra pela exposição na imprensa?Não sabia dessa regra deles. É do clube. O Peu (centroavante brasileiro) sofreu
bastante pois era o artilheiro do time. Ele saia bastante no jornal. Era 20 euros
por foto. Então, a gente preferiu respeitar. Pagava no fim para fazer a festa
de final do ano, teve feijoada, pão de queijo. Ficou na descontração. Eu paguei
100 euros, bastante dinheiro.

Como foi a decisão de retornar ao Brasil?Houve uma ligação do Marcelo Teixeira. Havia algumas
propostas de times europeus. O Fluminense achou que não era válido me liberar.
Viu potencial, evolução nos empréstimos. Disse que eu ia integrar o
profissional. No fundo, era isso que eu queria. Subi em 2015, não entendia
muito o que era estar no time de cima do Fluminense. Achava que a oportunidade
ia acontecer a qualquer momento. Eu não tinha noção de onde eu estava. Tinha
Fred, Conca, Wagner, com jogadores de alto nível e de história no futebol
nacional. Deixei escapar a oportunidade. Após as passagens fora, eu disse para
mim mesmo que tinha de entender o que era estar no Fluminense. Como sou do Rio,
foquei mais. Aqui se fica mais próximo dos amigos e se esquece do trabalho. Me
distanciei de algumas pessoas e encarei o Fluminense de outra forma. Os elogios
do Abel são fruto do meu trabalho, mas ainda tenho muito o que mostrar. Fiquei
feliz pela estreia, em um clássico, contra grandes jogadores como Nenê e
Andrezinho.

Não deu muito tempo, dada a circunstância do jogo, com o Vasco
pressionando, de mostrar o meu futebol. Mas é marcação e saída rápida ao ataque.
Tenho um bom pulmão, consigo proteger a zaga e sair em velocidade. Agora, claro, tenho muito a mostrar ainda.

Você entrou em campo em um momento de adversidade.No intervalo, estava focado já. Quando abrimos o placar,
pensei que naturalmente que eles iriam atacar e o Fluminense poderia ter de se
fechar. Achei que ia sair a minha oportunidade. Felizmente, fizemos o segundo
gol. A adrenalina subiu. Fiquei atento, Leomir pediu a minha atenção. Fiquei
mentalizando o que fazer dentro de campo. Vasco pressionava. Abel me chamou,
fiz o que ele pediu, ajudei o Leo no lado esquerdo, ele estava pressionado pelo
Nenê. Fui feliz. E consequentemente marcamos o terceiro gol. Não teria estreia
melhor. Em clássico e com a vitória.

 

Como é trabalhar com o Abel? O que ele disse antes de você entrar em campo?Em 2013, fiz meus primeiros treinos no profissional. Abel já
estava. Ele é um paizão. Brinca na hora que pode, rasga na hora que deve.
Quando eu vi esse ano que o Flu fechou com o Abel, achei bacana. Tenho amizade
com o filho dele, o Fábio. Ele é sério e cobra, mas também dá tranquilidade ao
atleta. É um cara excepcional. Ali é um momento do jogador, de saber o máximo que o
treinador quer. Ele vê a tensão do atleta. E corta isso. Ele me passou o que
queria e, ao final, me pediu tranquilidade. Passou confiança. Ele falou que
iria assumir a responsabilidade caso desse algo errado.

 

Qual o seu objetivo no ano?Meu objetivo, assim como da equipe, é obter título. Começo
do ano passado foi bom, mas o final não teve legado legal. Não estava aqui, mas
me incluo. Foram 10 jogos sem ganhar. A gente estava perto da Libertadores e
ficamos distante. A equipe mudou, está mais unida. Todos estão ligados e
focados. Acredito que a gente vai ter sucesso. Espero que a gente possa brigar
por títulos.