Juiz fala de carreira, política, pontua sobre leis e caso que marcou...
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Juiz fala de carreira, política, pontua sobre leis e caso que marcou sua vida

Fonte: Ana Flávia Dorsa
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O juiz Wladymir Perri, da 1ª Vara Criminal de Rondonópolis concedeu entrevista especial ao Notícias de Mato Grosso e dividiu um pouco de sua vida e visão do mundo que o rodeia. Homenageado, reconhecido pelo seu trabalho, tanto pelo Legislativo quanto pelo Tribunal de Justiça, tem história familiar dentro do Poder judiciário e por isso, sente a responsabilidade ao julgar. Acreditando ter a mão pesada, garante penas sempre altas, mas procura acima de tudo atuar de forma exemplar.

NMT: Qual é a sua história com o judiciário?

WP: Na verdade a minha história começa com o judiciário por causa de papai, aliás, toda a minha família está ligada de um modo geral com o poder judiciário. Papai foi promotor de justiça, chegou a ser procurador de justiça, tio Moacir foi promotor de justiça, chegou a ser procurador de justiça, tio Arquimedes foi promotor de justiça, na época que não era nem concurso, era indicação, e isso nós estamos falando da década de 50, 60. Papai não, mais recente, papai se aposentou em 1988, então tem toda uma história, tem toda uma ligação. Então isso aí veio da família, evidentemente quando você convive no meio a tendência é você seguir a carreira dos seus pais.

NMT: O que levou o senhor a seguir os passos da magistratura?

WP: Na verdade eu tinha uma pretensão de prestar concurso público, ou seja, na verdade eu queria seguir a carreira do Ministério Público, até porque é tradição da família. Lamentavelmente não obtive êxito, mas isso não significa que eu seja um juiz frustrado. Eu tive a oportunidade de passar no poder judiciário de Mato Grosso e assim estou. Mas é na verdade quando eu optei pela questão da carreira no poder judiciário, como eu ponderei, não foi necessariamente o poder judiciário e sim a questão do que eu queria seguir uma carreira pública. Eu queria ser útil para a sociedade.

NMT: O que diria hoje para um aluno de Direito, ou para alguém que está engajado, estudando para uma carreira pública?

WP: Eu acho que é preciso aproveitar a oportunidade, eu acho que nos cinco anos de faculdade, é o momento de estudar, de se aplicar, aprender, não deixar para depois. O tempo é implacável, tudo tem seu preço na vida, se você quiser curtir esse momento de faculdade, pode curtir, mas isso terá um preço lá na frente, então o que eu posso dizer aos acadêmicos de Direito é que aproveitem a o momento. Tem muitas pessoas que se vitimizam, e alegam que a faculdade era ruim, na verdade eu mesmo estudei em uma faculdade onde o ensino não era tão bom, e mesmo assim consegui ser magistrado, então não é a faculdade que faz o aluno, é o aluno que faz a faculdade.

NMT: O que o senhor acha que deveria ser feito para aproximar o poder judiciário da sociedade, das pessoas mais humildes?
Juiz: Descentralizar. É isso que nós estamos fazendo, levando o judiciário mais próximo às comunidades. As comunidades tem que saber o que acontece com os crimes, para isso, levamos um programa para os bairros, para que as pessoas que moram no local onde houve o crime, soubesse qual foi o resultado daquele fato delituoso. Assim é a descentralização, é aproximar cada vez mais o judiciário do povo, dos cidadãos no modo geral.

NMT: É possível falar sobre a postura, a responsabilidade de um magistrado?

WP: Eu acho que o magistrado tem que ser um exemplo, você tem que dar o primeiro exemplo pra tudo, agora não se pode esquecer que o juiz é um cidadão, ou seja, não espere dele, que ele seja uma pessoa perfeita, que ele seja Deus, ele não é. Perfeição só com Deus, portanto ele vai incidir em erros, e erros, às vezes até corriqueiros. O que eu acho é que ele não pode ter uma postura desonesta, como ser corrupto, ou condutas reprováveis. Ele é visto pela sociedade, e toda a sociedade espera dele uma conduta correta. Eu tenho direito de entrar em um bar com a minha família, de beber minha cerveja, o que eu não posso é dali cometer um crime de trânsito, por exemplo, como embriaguez ao volante. Agora se eu quiser encher a cara, eu posso assim proceder, não tem problema nenhum, como cidadão, desde que eu não cometa delitos, e se eu cometer delito, não vai ser o juiz que estará cometendo, mas sim o motorista. Então tem que saber discernir as coisas.

NMT: Aproveitando que o juiz Sérgio Moro está em evidência devido os escândalos políticos, qual a influência da política na sua profissão?

WP: Eu nunca permiti essa influência, eu sou um juiz muito independente, tanto é que eu não participo de grupos, a não ser das minhas associações, através de whatsapp. Não participo de nenhum grupo político, não tenho nenhum interesse em política partidárias a não ser a política da minha instituição. Eu não dou oportunidade para que as pessoas venham a intervir na minha vida.

NMT: Acredita que há diferentes expectativas das camadas sociais sobre a justiça?

WP: Fala-se muito que a justiça é para pobre, para preto, eu acho que isso é mais um mito. Uma prova disso é o que estamos vendo agora. Pessoas sendo processadas, políticos sendo presos, empresários sendo condenados. Antes não existia tanta frequência nesses tipos de crime, então não se divulgava tanto, mas nem por isso significava que não punia, punia na mesma forma, mas com menos proporção que hoje. Os tipos de delito mais comuns de Mato Grosso na década de 70, 80, eram de pistolagem, não era crimes de corrupção como é hoje. Mudou o tipo de crimes, conforme a evolução da sociedade, também altera o tipo de crime.

NMT: No Brasil, especialmente em Rondonópolis, o Direito atende as expectativas da população?

WP: Eu acho que não. Existe uma demanda desumana de processos. Não tem como resolver essa questão, é muito mais complexo. Para resolver a celeridade processual é necessário abrir mais concursos, mais varas, contratar mais servidores públicos, e isso depende do Estado estar arrecadando. Eu mesmo cheguei a responder por três varas e mais uma comarca. Não é só a questão da responsabilidade, isso acaba afetando até mesmo em termos de prestações jurisdicional e a saúde do profissional. Isso significa que o risco de uma decisão errada é maior. Quando o Estado estiver arrecadando em consequência disso ele vai abrir concurso, vai ter chances de criar mais comarcas, contratar de juízes e servidores públicos, aí resolve a prestação jurisdicional.

NMT: O que acha das nossas leis?

WP: Vamos pegar uma lei específica pela qual trabalhei até um passado recente, que é a lei de execução penal. Eu a considero perfeita, mas para os países de primeiro mundo, não para nós. Aqui o sistema prisional é público e notório que é um caos, não funciona. O processo de ressocialização pode ser que funcione, mas nesse momento é uma utopia.

NMT: Como julga as pessoas todos os dias, inclusive tivemos vários os júris recentes, o que é mais determinante para você em uma decisão?

WP: A análise correta do fato. Eu não tenho preocupação nenhuma quanto à questão da dosimetria da pena. Sou um juiz muito rigoroso quanto à questão da pena, ou seja, minhas penas são sempre altas, mas por outro lado, o que me preocupa realmente com a questão das sentenças é a decisão final. Uma análise incorreta vai trazer consequências, um incentivo a criminalidade, ou a condenação de um inocente e isso me preocupada muito. A pena é apenas uma consequência dessa análise correta dos fatos, portanto se ela vai ser reformada, e geralmente são, é porque eu sou um juiz com a mão pesada.

NMT: Qual foi o caso jurídico que marcou sua vida?

WP: Há alguns os casos jurídicos que marcaram a minha vida, geralmente são todos os que repercutiram negativamente. Também teve coisas boas. Sem dúvida o caso de um jovem recuperando que estuprou e matou uma criança, após ter regime de progressão de pena foi o mais marcante. Ele estava preso há certo tempo e eu consegui manter ele por mais três anos. Mas chega um momento que você não tem o que fazer, a lei determina que têm que colocar em liberdade e assim o fiz.

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