Ex-gerente de posto, Eduardo define seu combustível no Palmeiras: títulos
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Ex-gerente de posto, Eduardo define seu combustível no Palmeiras: títulos

Fonte: Felipe Zito e Tossiro Neto
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A primeira experiência de liderança do “filho de Nelsinho Baptista” foi quando ele tinha acabado de sair da escola. O pai comprou, no início de década de 1990, um posto de gasolina em Campinas, onde a família morava, e o deixou sob responsabilidade de Eduardo. Começava ali o aprendizado do hoje comandante do Palmeiras para lidar com um grupo de subordinados.

– Posto de gasolina é complicado. Com 19 anos, eu administrava 18 funcionários – diz o treinador do Palmeiras, que antes de ajudar no negócio do pai ouviu dele o conselho para abandonar o sonho de se profissionalizar como zagueiro e focar nos estudos.

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Quase 20 anos depois de seguir a dica, Eduardo continua estudando. Mestre em educação física e ex-blogueiro (passatempo que adotou para unir as lições de casa e o gosto pela escrita), ele tem como próximo passo acadêmico obter a licença A de treinador da CBF, curso do qual é também professor de uma das matérias.

Seu grande desafio, porém, é outro. Em sua quarta temporada na profissão que herdou do pai, cercado de desconfianças iniciais, ele tem a missão de gerenciar a estrelada equipe palmeirense, atual campeã brasileira, e mantê-la no caminho das conquistas. A primeira pode ser a do Campeonato Paulista, cujo mata-mata começa para ele no domingo à noite, no primeiro duelo das quartas de final contra o Novorizontino, fora de casa.

– Ganhar um título paulista daria um upgrade de confiança, combustível, moral, para buscar Libertadores, o bicampeonato brasileiro – avaliou Eduardo, cada vez menos distante da alcunha de “filho de Nelsinho Baptista”, em entrevista concedida no começo da semana.

GloboEsporte.com: Você está morando em São Paulo ou Campinas?Eduardo Baptista: Mais ou menos. Minha família é toda de Campinas. Tenho um apartamento aqui em que eu fico. Nos dias em que abre uma brecha maior, com treino de manhã e no outro dia só à tarde, acabo indo para Campinas. Tenho filha na faculdade, um menino adaptado na escola. Preferi que eu ficasse me movimentando e deixá-los quietinhos.

Pelo jeito, você gosta muito de Campinas.Ah, nasci lá. Fiquei muito tempo sem morar lá. Morei seis anos no Japão, mais cinco no Recife. Foram quase 12 anos fora de Campinas. Quando voltei, decidi fazer a base lá. Aqui estou perto. Do portão do CT até a porta da minha casa, dá uma hora cravada. Dependendo de onde você morar em São Paulo, é mais fácil ir para Campinas. Mas tenho ficado mais em São Paulo.

Como foi sua tentativa de ser jogador profissional?A cobrança era muito grande. Tinha uma legião de filhos de ex-jogadores. Eu, o Gustavo, filho do Dicá, o próprio Cristiano Nunes, filho do Flamarion. Era uma legião que, infelizmente, não conseguiu. O Gustavo foi mais além ainda, jogou mais jogos do que eu. Eu parei cedo. Teve a história das expulsões, quando meu pai foi me ver jogar. Aí acabamos decidindo, ele me falou para estudar, que seria o melhor caminho.

Contam que você chegava firme mesmo, era viril.Eu era muito rápido e forte. Era, né? (risos). Hoje não tenho a mesma velocidade. Às vezes, passava um pouquinho do ponto. Não era maldoso, mas chegava forte. Tomava cartão em todos os jogos. Se eu não conseguisse usar a força, não conseguia jogar. Então, era complicado. Não tinha muito timing e acabei não dando certo.

Sobre não ser maldoso, você já disse o mesmo sobre o Felipe Melo…Exatamente. O adversário sabe que em uma disputa de bola com o Felipe tem que ir duro, tem que ir firme, porque ele vem firme. Mas você nunca vai vê-lo com um pé mais alto para agredir, um cotovelo armado. Isso, você não vê nele. Ele vai firme. Na Europa é assim. Muitos lances que se discutem aqui, na Europa o juiz nem olha, manda seguir. Trabalhei com ele quando ele tinha 18 anos e subiu da base para o profissional (no Flamengo, quando Eduardo era preparador físico e seu pai era técnico). Já era assim. Foi para a Europa e continua sendo assim. Em nenhum momento, vejo nele maldade.

Você sentiu pressão no início da carreira como treinador por ser filho do Nelsinho?Muito forte. No Sport, um clube que tem mais de 100 anos, ele é considerado o treinador do século. É pesado isso, e eu comecei ali. Ali começa com aquilo de “ah, deixa o Eduardo, é o filho do Nelsinho”. As coisas começaram a andar, e a comparação vem. Passei por dois anos bem pesados como treinador do Sport. Bem pesado de cobrança. Tinha aquela coisa de ser o filho do Nelsinho. Mas nunca me incomodei com isso. É uma honra, um prazer ser filho dele, ter trabalhado com ele. Sempre tive a consciência de que tinha que buscar meu espaço. Não adianta falar que não gosto que me chamem de “filho do Nelsinho”. Se os resultados vierem, é “o Eduardo, que é filho do Nelsinho”. E não só  “o filho do Nelsinho”. Mas isso também nunca me incomodou, nunca fiz questão de corrigir. Até o ano passado, as pessoas se confundiam e me chamavam de Nelsinho. Pode chamar de Nelsinho, que está bom também (risos).Ser contratado pelo campeão brasileiro do ano passado é seu maior desafio na carreira até agora?Gosto de desafios. Voltando um pouquinho… No Sport, eu cuidava da preparação física, era muito ligado à diretoria, à gestão do departamento de futebol. Tinha um cargo de confiança e poderia estar no Sport até hoje. Mas meu pai já me falava sobre ser treinador, e eu tinha essa sementinha plantada. Quando tive a oportunidade, esse foi o grande desafio. Sabia que, abandonando uma carreira inteira, não poderia mais voltar. Outra decisão importante foi a própria Ponte Preta. Sou de Campinas. Guardadas as devidas proporções, o que o Palmeiras é em nível nacional, a Ponte Preta é em Campinas. Lá você é reconhecido, tem uma torcida pesada, que cobra. Eu estava pegando um trabalho pelo meio, o time não tinha conseguido classificar no Campeonato Paulista. Sabíamos que teríamos que remontar o time, como remontamos. Foram sete contratações. Das sete, seis acabaram como titular. Fizemos outra equipe. A chance de dar errado era muito grande.

E aí vem o Palmeiras.Aí o Palmeiras… A gente pode até separar a grandeza do Palmeiras por si só, pelo time grande que é. Mas o momento de título brasileiro, de substituir um treinador que é unanimidade, chegar com contratações de peso… Pensei bastante, mas não tive dúvida nenhuma. Acreditava que as coisas poderiam acontecer. Acredito muito no Alexandre (Mattos, diretor de futebol), tinha vontade imensa de trabalhar com ele, e meti as cabeças. 

Torcedor é passional, mas, de uma maneira geral, imprensa e dirigentes no Brasil dão pouco tempo para um trabalho ser analisado?É normal. Eu sabia que ia passar por isso. “Ah, é o time campeão brasileiro”. Mas acho que não coloquei nenhuma vez o time campeão em campo, os 11. Tudo isso eu já sabia. Sabia que teria dificuldade, que chegariam jogadores importantes, que a gente teria que montar um time. Eu tentei mudar muito pouco do que o Cuca fez, mas são filosofias diferentes. Alguma coisa você acaba mudando. Mas acreditava num cara aqui dentro: o Alexandre. Sabia que ele ia ter essa paciência de passar por um momento de transição. Quando ele me ligou, falou: “Eduardo, aqui é o Alexandre. Como é sua situação com a Ponte?”. Eu disse que tinha contrato, mas havia uma conversa de que se no final do ano chegasse um convite importante, eles me liberariam. Ele falou: “E você acha o Palmeiras importante?”. Eu respondi: “A que horas eu tenho que estar aí?”. Essa foi a conversa.

E como tem sido até o momento?É lógico que se os resultados não acontecem também da maneira que aconteceram até aqui, seria difícil, porque a pressão é grande. Mas sabia que ele seguraria o tempo suficiente para que eu pudesse dar uma resposta no campo. Esse foi o ponto principal. Depois que acertei com ele, conheci o Maurício (Galiotte). O presidente também se mostrou um cara muito tranquilo, deu respaldo. Na hora ruim, depois do jogo do Corinthians, ele veio até mim e disse: “Siga suas convicções, estamos por trás.” Isso te dá uma força do caramba. Com eles acreditando… Eu já acreditava. Vendo isso dos dois, você passa a acreditar muito mais. A pressão da torcida e da imprensa é normal, vai continuar sempre. Amanhã, se Deus quiser, nosso time vai ser campeão paulista, classificar para (o mata-mata) da Libertadores. Mas se iniciar o Brasileiro mal, a pressão volta toda de novo, e você tem que estar preparado para isso.

Mas isso não poderia mudar? Como mudar?Se você tem resultados ruins e a diretoria não dá respaldo, não blinda, seria ruim. Isso, no Brasil, poucos clubes fazem isso. Aqui sabiam que teria uma transição. Qualquer outro treinador que viesse aqui, poderia ser um treinador de renome, com 20 anos de experiência. Ele teria um período de transição. Então, eles (dirigentes) seguraram isso. E eu vejo como normal a pressão da imprensa e da torcida por querer uma resposta rápida, por achar que porque foi campeão brasileiro, porque manteve 85% do elenco e trouxe mais jogadores, vai ser campeão de novo. Não, não é só isso. Tem que ter trabalho em cima disso. Vai ter que ter luta, organização. Elenco por si só não vai ganhar nada. 

Você já falou do seu irmão, da esposa, dos filhos. O episódio do tsunami no Japão em 2011, que te fez voltar para o Brasil, foi um momento difícil para você e a família?Foi um dos momentos difíceis em 44 anos. O Palmeiras é meu grande desafio profissional. Tive outros desafios familiares. Esse episódio do Japão envolveu tudo. Eu precisei me separar do meu pai por dez anos, sabendo que meu pai tinha uma dependência minha. Ele cuidava da parte tática e todo o trabalho que envolvia programação, montar treinamentos, era tudo comigo. Ele queria os 11 em campo e o trabalho tático. Essa minha decisão de voltar ao Brasil foi pesada. Para mim, que ralei muito para estar com ele, tinha vida tranquila, um bom salário. E também ia deixá-lo. Eu sabia que iria fazer falta para ele. Foi uma decisão muito difícil, começar do zero de novo. Foi bem complicado.

Quando vai de carro para Campinas, ouve o quê? Você liga o rádio e se desliga do trabalho?Ouço música, mas nem lembro a música que passou. É até me policio, que é perigoso. Estou no segundo pedágio e não lembro que passei do primeiro. Não sou doido, vou a 100 por hora na (Rodovia dos) Bandeirantes, e o jogo passa inteirinho na cabeça, as coisas que eu poderia ter feito, as coisas que eu fiz, o que deu certo, o que não deu. Para mim, o treino continua na estrada.

E quando é que você se desliga do trabalho? Você se desliga?É difícil. Do jeito que a gente está… Para falar a verdade, ontem (domingo), eu acordei cedo em Campinas, desliguei o celular, peguei meu filho, fui até a Lagoa do Taquaral andar de pedalinho, tomar sorvete, água de coco. Dei uma caminhada. Só que, às quatro, tinha São Paulo x Corinthians. Dali eu liguei meu celular de novo e fui até acabar o jogo da Ponte Preta. Mas consegui me desligar um pouquinho.

Tem algum passatempo?Ficar com a família mesmo. A gente fica tão pouco… É dar uma volta, ir ao parque, no prédio temos os amigos. Visitar minha mãe, que fazia tempo que a gente não via, meus irmãos.

Você tem quantos irmãos?Tenho dois. O Nelsinho. Esse, sim, é Nelsinho (risos). Nelsinho Neto, o meu pai é Júnior. E a minha irmã Andreia.

Sua filha faz faculdade de quê?Veterinária. Tentei levá-la para a área do esporte, ela não quis. Ela queria ser jornalista. No Recife, eu a levei em dois programas de TV. Os meninos de lá falaram para ela não estudar jornalismo (risos).

O Novorizontino é o adversário do Palmeiras nas quartas de final e foi outro clube em que seu pai trabalhou. Foi vice-campeão paulista em 1990.Em 90, eu tinha 18 anos, estava jogando ainda e começando a faculdade. Já tinha a dúvida se eu seguiria como jogador ou não, iniciando a faculdade. Mas acompanhei bem o trabalho.

Chegou a ir para Novo Horizonte?Fui uma vez. É longe (risos).

E o campo lá? O São Paulo teve dificuldade, numa tarde em que choveu muito.A última vez em que fui para lá, a grama era mais grossa. Era um piso, na época, muito parecido com o gramado dos Aflitos (em Recife). É pesado, é quente. Vi esse jogo, quando choveu, e ficou realmente pesado. Tem que ter atenção com isso, com o clima, com a logística para chegar até lá, que é um pouquinho mais complicada.

Tem preconceito ou má vontade no futebol brasileiro com treinadores ou pessoas que falam de tática?Não sei. Eu sempre gostei do conhecimento. Uso muita coisa de psicologia no dia a dia. Para isso, vou buscar, vou ler. Pela responsabilidade que temos aqui, o mínimo a fazer é estudar. Já me ajuda ter um elenco com QI altíssimo. Impressiona. Você fala duas, três coisas, pegam. Dessas duas, três coisas, eles mesmos criam variações. Eu cresço a cada dia com eles. Vamos colocando as coisas, eles vão fazendo. Fazemos treinamentos que induzem tomadas de decisões. Com um grupo desses, você não pode vir com tudo pronto. Tem que deixá-lo evoluir, não tem que vir com receitinha de bolo. Para isso, você tem que estudar. Se tem esse preconceito, já teve mais. Hoje, temos caras muito bem qualificados no futebol brasileiro. Não só treinadores, mas analistas, jornalistas. Já há sinais de pessoas que entendem o objetivo do treinamento, um jogo. O futebol está crescendo de um jeito que todos têm que subir. 

O que você está lendo?Estou lendo “Onze Anéis”, do Phill Jackson, que ganhou 11 títulos da NBA como treinador. São histórias que remetem ao seu trabalho aqui dentro. É interessante ver que lá, muitas vezes, eles têm as mesmas dificuldades que temos aqui no futebol.

Você está concluindo a licença A da CBF para treinador, mas também é professor do curso, né? Qual sua disciplina?Dou aula de parte tática. Geralmente, organização do jogo, tanto defensiva quanto ofensiva. Em julho, devo dar aula. Dou aula em maio também no Sitrefesp (Sindicato dos Treinadores de Futebol Profissional do Estado de São Paulo). O curso da CBF dura 15 dias. Minha matéria cai em alguns dias, e eu tenho que encaixar com meu calendário. Se eu tiver jogo, não dá. Eles me mandaram a guia, eu disse que vou novamente. Só estou esperando sair a tabela do campeonato para acertar os dias.

Qual das suas decisões à frente do Palmeiras funcionou melhor? Alguma que você tenha apostado e depois viu dar certo.Um lance legal foi o Dudu por dentro (atuando mais centralizado). Vendo o jogo, você tem noção do que acontece. Mas ver depois, de cabeça fria, com câmera aberta, é diferente. Vi que as melhores ações do Dudu eram por dentro. Sentei com os analistas e falei sobre o Dudu nessa posição. Mas ele jogou assim com o Marcelo (Oliveira), as coisas não aconteceram. Caramba. Aí treinava, conversa com ele, até que colocamos. Ele foi muito bem  porque as melhores bolas dele são com ele por dentro. Ter achado isso, ver que ele ficou contente em jogar ali… Isso foi uma decisão importante que a comissão e eu tomamos.

Contra o Santos, com o time escalado no 4-1-4-1, Dudu começa aberto pela esquerda, e o Guerra centralizado. No fim do primeiro tempo, ele começa a buscar o jogo pelo meio e melhora. No intervalo, você tira o Guerra e põe o Dudu pelo meio.As entradas do Róger Guedes e do Willian no segundo foram importantes, deram profundidade melhor. Mas a grande sacada do jogo contra o Santos foi essa, o Dudu por dentro. Foi aí que o jogo andou. Com o Dudu por dentro, eu tinha o Willian de um lado, o Guedes do outro. Pelas beiradas, fomos empurrando o Santos para trás. O Dudu vinha buscar bola, acionava, entrava.  Se ele gosta de jogar pela esquerda, nada impede que ele venha pegar bola pelo lado esquerdo. Mas quando ele está pelo lado esquerdo ele tem que vir fechar o setor. Quando ele está por dentro, a gente rouba a bola e procura ele. Aí, ele tem qualidade, tem o passe e velocidade. 

Você citou a inteligência do elenco do Palmeiras, mas já tinha sido adversário desse elenco campeão brasileiro. De perto, trabalhando no dia a dia, te impressionou mais?A qualidade é mais visível em treinamento do que no jogo. No jogo, as coisas ficam um pouco mais limitadas. Em treinamento, você vê todo o repertório que eles têm. Mas o que me chamou a atenção foi a maneira como esses caras treinam, como trabalham. É muito sério. A união deles, a maneira como protegem esse bom ambiente. A gente controla, mas eles são os responsáveis, todos eles. Sem exceção de nenhum. Esse profissionalismo somado à qualidade técnica é um upgrade muito grande em relação a outros.

Ter um elenco com tantas boas peças é realmente bom ou pode se tornar um problema?Se isso não for bem administrado, pode se tornar uma grande dificuldade. Mas hoje (segunda-feira), treinamos com 17 jogadores. Fui com 19 para o jogo (contra o Audax). Para a exigência do futebol brasileiro, a exigência do Palmeiras de ganhar todas as competições, tem que ter um elenco numeroso. A grande sacada é que, além desse profissionalismo entre os atletas, a diretoria sempre nos ajuda. Eles estão sempre por trás. A parte técnica, a parte médica, o Altamiro (Bottino, coordenador científico) é o gerenciador de tudo. Todos protegem isso, cuidam. Com isso, você não tem problema nenhum. Se o jogador não está atuando, está trabalhando para voltar. O Guedes é um exemplo disso.

Ele recuperou espaço no time.Ele caiu um pouquinho de produção, eu conversei com ele e disse que o nível estava muito alto. Se titubear, cair um pouquinho, os outros sobem. Ele entendeu, treinou, foi entrando, fez bons jogos e está se firmando, voltando a ganhar a posição de novo. Como eu disse em uma das primeiras coletivas, tenho que estar atento para observar o melhor momento de cada um. O Erik, por exemplo. Ele me começou a dar sinais interessantes. Já já, ele está batendo aqui em cima, eu tenho que ter a sensibilidade de dar uma oportunidade para ele. Os atletas estão entendendo isso, respeitando isso. Fica contente (com a reserva)? Não, e não tem que ficar. Mas tem que respeitar e trabalhar para buscar. Quem estiver melhor joga.

Você tentou ser jogador, foi preparador e agora é treinador. Já viveu muitas experiências no futebol ao lado do seu pai e neste início de carreira como técnico. Qual é o grande prazer nesse cargo?É ver as coisas funcionarem bem. Resultado é importante, mas ver as coisas fluírem é importante também. Se isso estiver bem, com a qualidade que a gente tem, o resultado no campo vem. Essa harmonia entre todos é algo muito gostoso. E a ansiedade em ganhar um título pelo Palmeiras. É o meu maior desejo, meu grande objetivo. Estou trabalhando para isso, para crescer ainda mais, junto com o Palmeiras. O Palmeiras está me dando essa oportunidade.

 No passado, valorizava-se mais o título paulista. Hoje em dia, há um desdém por parte de alguns. Para você, o quão importante seria ganhá-lo?Só vira importante quando se perde. “Puta, perdeu o Paulista.” O Santos se vangloria, vem chegando em todas as finais. Temos condições de brigar, vamos brigar. Da maneira que o Libertadores se desenhou neste ano, ganhar um título paulista daria um upgrade de confiança, combustível, moral, para buscar Libertadores, o bicampeonato brasileiro. O título paulista é importantíssimo. Em anos anteriores, você jogava fase classificatória importante da Libertadores junto com semifinal e final. Neste mês, não. O mês de abril tem dois jogos importantes para se classificar, mas semanas cheias para trabalhar e descansar a equipe. Está bem balanceado, a Libertadores não atrapalha em nada. Dá para focar também no título paulista.

Por falar em combustível, é verdade que você trabalhou em posto de gasolina?Trabalhei. Logo que parei de jogar, mais ou menos em 91 ou 92, eu estava estudando. Foi uma época em Campinas em que o Careca comprou posto, o Julio Cesar. A boleirada começou a comprar posto. Meu pai foi e comprou um. Só que meu pai comprou e não tinha quem tocar. Falou que eu precisava tocar. Aí minha irmã e eu tocamos o posto. Eu fazia faculdade à noite. Cuidei do posto por quatro anos, até me formar. Quando me formei, segui a minha. Minha irmã ficou mais um pouquinho e acabou vendendo. 

O que você fazia exatamente?Era toda a parte administrativa. Fazia o caixa também, fui assaltado já… (risos) Arma na cabeça! Teve de tudo. Posto de gasolina é complicado. O posto tinha 18 funcionários. Com 19 anos, eu administrava 18 funcionários.

Já era uma experiência para o momento que você vive.Sim, muita coisa. Psicologicamente, muito do que aplicava lá, aplico em campo. Gestão de pessoas, de manter todos motivados. Cada um dentro da sua função, mas todos trabalhando por um bem comum. Isso foi muito legal para mim.

Você também teve um blog, certo?Tive. Eu gosto de escrever. Esse blog era sobre parte física. Comecei a escrever, e ele começou a crescer. Aí vi que não estava dando conta. Já seria difícil dar conta da minha profissão, da minha casa. Precisei parar (risos). Mas por um ano escrevi algumas coisas sobre preparação física. Servia para estudar também. Coisas que lia e achava interessantes, eu fazia resumos de livros. Foi legal também, mas ficou pesado.

Currículo variado…De faz-tudo (risos).

Ex-gerente de posto, ex-blogueiro…Trabalhei na CPFL (Companhia Paulista de Força e Luz) como digitador. Em São Paulo é CPFL?

Eletropaulo.Eletropaulo! Em Campinas, é CPFL. Eu digitava conta de luz. Hoje é fácil. Antes vinham aqueles calhamaços. Foi antes do posto. Eu estudava e trabalhava. Às vezes à noite, às vezes à tarde.

O que já se tem de Eduardo nesse time do Palmeiras?Defensivamente, a gente procurou pegar a agressividade que o time do Cuca tinha e trazer para um lado mais zonal, com intenção de deixar sempre meus dois atacantes (pelos lados) mais próximos do gol adversário. Essa troca do extremo com o lateral, para não deixar o atacante longe do gol… Mas quando precisou do encaixe individual, conseguimos fazer também. Tentamos agregar algumas coisas. Forço os zagueiros a jogar, o Edu, o Mina. O Felipe, o Jean, o Zé, o Egídio dão qualidade à saída de bola. A gente busca aprimorar um pouquinho, sair um pouquinho mais rápido. Isso é treino, as coisas não funcionam tão rapidamente.

O Luan, do Vasco, é bom zagueiro?(risos) É bom zagueiro, joga em qualquer time. Zagueiro de seleção brasileira.

Cairia bem no Palmeiras?Vamos esperar. Temos bons zagueiros. Temos que destacar o Antônio Carlos. Não foi uma aposta, porque convivi com ele de perto. Mas a gente sabe como é chegar a um elenco que tem Vitor Hugo, convocado para a Seleção, Edu Dracena, Mina. Ele chegou, foi ganhando espaço, ganhando espaço. Nas horas importantes, ele foi bem. Tem que respeitar esses caras.

O timing e as vibrações dele nos desarmes chamam atenção.O Antônio Carlos é muito rápido, muito forte. Quando falamos para o cara estar preparado não é na hora do jogo. Ele é sempre um cara vibra, fala nos treinos, mas sempre discreto. Em Tucumán, o time se fechou para a oração antes do jogo. Eu falo um pouco, o Felipe fala, o Prass… Ele chamou para ele tudo [Eduardo o imita gesticulando com intensidade]. Dez minutos depois ele estava em campo jogando. Não que ele chamou a expulsão (Antônio Carlos entrou no lugar de Michel Bastos para compensar a saída de Vitor Hugo, expulso), mas ele passou a confiança de jogar. Naquele momento senti que precisávamos arrumar a linha, e o cara mostrou para mim que estava ali. São coisas que acontecem que levamos em consideração. É um cara que está querendo, buscando, entrou e foi bem.