Em Toronto, o pódio foi endereço de Mato Grosso
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Em Toronto, o pódio foi endereço de Mato Grosso

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EDUARDO GOMES

Mato Grosso olímpico vai bem, obrigado, desde que se leve em conta somente seus atletas. Porém, é uma lástima o papel do Estado na área esportiva. Com oito medalhas nos Jogos Pan-Americano em Toronto, disputado neste julho, os 10 atletas mato-grossenses que participaram das competições buscaram força até onde não tinham.

O resultado foi excelente: Mato Grosso faturou quatro ouros, três pratas e um bronze. Essa proeza ficou por conta de Ana Sátila e Felipe Lima (ambos com ouro e prata), David Moura (ouro), Bruna Benites (ouro), Ana Tiemi (prata) e Leandro Aparecido (bronze). As irmãs Clemilda e Janildes Fernandes, Pedro Burmann e Vanusa Henrique dos Santos não subiram ao pódio.

Ana Sátila, canoísta e maior atleta olímpica mato-grossense, não mora nem treina em Mato Grosso: passou a infância e o começo da adolescência em Primavera do Leste, mas mudou-se para o Paraná, onde pratica seu esporte nas águas do rio Paraná, com patrocínio da Itaipu Binacional.

O patrocínio da Itaipu bota o Paraguai diretamente na retaguarda de Ana Sátila, porque aquele país é sócio com o Brasil na gigante geradora de energia limpa, que também investe na canoagem.

Ana Tiemi, a levantadora da Seleção Brasileira de Vôlei, nasceu em Mato Grosso, mas mora e joga em Bauru, no interior de São Paulo. Sua carreira começou em sua terra, mas o esporte a levou para fora, inclusive ao exterior, onde defendeu o Bursa Büyüksehir, da Turquia.

Felipe Lima, nadador cuiabano, é visitante em sua terra; fora da seleção carrega no uniforme de natação a logomarca da Unisanta, de São Paulo, capital. Em Mato Grosso a natação é esporte pouco praticado e na maioria dos municípios sequer existem piscinas para sua prática.

Leandro Aparecido nasceu em Mato Grosso e mudou-se para Araçoiaba da Serra, em São Paulo, onde construiu sua carreira esportiva. Em sua terra, a modalidade do hipismo que o consagrou sequer é disputada.

O único atleta mato-grossense medalhista em Toronto que mora em Mato Grosso é o judoca David Moura, de Cuiabá, que treina num clube da cidade onde nasceu. Após subir ao pódio, David Moura criticou a falta de incentivo de apoio do governo estadual e da prefeitura aos esportes olímpicos.

O chororô contra a falta de apoio incluiu a Federação Mato-grossense de Jiu-jitsu e Lutas Associadas (FMTJJLA), que se viu obrigada a remarcar a segunda etapa do Campeonato Mato-grossense de Jiu-jitsu para 29 e 30 de agosto, no Palácio das Artes Marciais Iusso Sinohara, no Complexo do Verdão, em Cuiabá. Essa etapa, que deveria ter ocorrido em 20 e 21 de junho, não pôde ser efetuada por dificuldades financeiras, uma vez que o governo não repassa recursos para a entidade e retém inclusive repasses do ano anterior.

Alexandre Galina, diretor-executivo da FMTJJLA, revelou que dois certames foram afetados neste ano. Em abril foi cancelada a 1ª etapa do Circuito Mato Grosso de Lutas, que visava reunir 200 lutadores de Luta Olímpica e Beach Wrestling do Centro-Oeste. Em junho foi adiada a 2ª etapa do Estadual de Jiu-jitsu, que reuniria 500 atletas da capital e interior.

O judô resiste em Mato Grosso e alcança bons resultados nas disputas nacionais, além do recente brilho em Toronto. A força desse esporte não é obra do acaso. Para alcançar bons resultados no tatame a expressiva colônia nipônica se desdobra. Japoneses, nisseis e outros de seus descendentes nascidos no Brasil praticam judô em Cuiabá, Rondonópolis, Barra do Garças, Cáceres, Juína e várias outras cidades. A dedicação de senseis a exemplo de Manao Ninomiya, em Rondonópolis, Pedro Shinohara, em Cuiabá, e outros, tem o reconhecimento dos atletas.

Além dos medalhistas, Mato Grosso também contou com outros representantes em Toronto. As irmãs Clemilda e Janildes Fernandes, ambas ciclistas, disputaram provas na condição de atletas goianas, embora sejam de São Félix do Araguaia; as duas treinam em Goiânia. O corredor Pedro Burmann Luiz de Oliveira, especialista na prova dos 400 metros rasos, nasceu em Porto Alegre do Norte, cidade à margem do rio Tapirapé, no Vale do Araguaia, mas mora em Porto Alegre (RS) e figura entre os atletas do Sogipa/Procempa. A corredora Vanusa Henrique dos Santos, de Carlinda, competiu no revezamento 4×100. Vanusa é colecionadora de medalhas: campeã ibero-americana, campeã brasileira no revezamento 4×100 e 4×400 metros, campeã sul-americana e brasileira sub-23 nos 100 metros. Por falta de apoio e incentivo em Mato Grosso é atleta da BM@FBOVESPA, de São Paulo.

ANA SÁTILA – Ex-moradora em Primavera do Leste, onde aprendeu com o pai e primeiro técnico a arte da canoagem nas águas rápidas e esverdeadas nas corredeiras do rio das Mortes. Mineira de Iturama, mas mato-grossense por adoção, Ana Sátila Vieira Vargas conquistou o ouro na canoagem slalom (C1) e a prata no caiaque (K1), nos Jogos Pan-Americanos de Toronto.

Na canoagem Ana Sátila foi a primeira brasileira a conquistar o ouro na história dos Jogos Pan-Americanos. Em 2012, nas Olimpíadas de Londres, quando tinha 16 anos, foi a mais jovem atleta da delegação brasileira. Por falta de incentivo em Mato Grosso treina no Paraná.

FELIPE LIMA – O nadador cuiabano Felipe Ferreira Lima, 30 anos, 1.89m e 88 kg, faturou o ouro nos 4×100 metros e a prata nos 100 metros peito em Toronto, cravando 1m00s01 – o 10ºmelhor tempo do ranking mundial. Longe das piscinas em Cuiabá, o medalhista treina no Unisanta, em São Paulo.

Felipe Lima participou das eliminatórias do revezamento 4×100, mas não disputou a final, vencida pelo Brasil com o quarteto Arthur Mendes, Marcelo Chierigni, Guilherme Guido e Felipe França, com o tempo de 3m32s68. Atleta que disputa eliminatória também recebe medalha caso seu time chegue ao pódio.

Especialista nos 50 metros peito e 100 metros peito, nessa segunda categoria Felipe Lima conquistou quatro medalhas no Pan, ao longo de sua carreira, e o bronze no Mundial de Barcelona, em 2013. Nos Jogos Pan-Americanos o cuiabano ganhou o ouro em 2011, em Guadalajara, nos 4×100 medley; e a prata, na mesma competição, nos 100 metros peito; e a prata, no Rio de Janeiro, em 2007, também nos 100 metros peito.

BRUNA BENITES

Zagueira e capitã da Seleção Brasileira que ganhou o ouro em Toronto, a cuiabana Bruna Beatriz Benites Soares nasceu em 16 de outubro de 1985, tem 1.78m e pesa 65 kg.

A carreira de Bruna Benites começou no Mixto Esporte Clube, de sua cidade. Depois passou por vários clubes e atualmente integra o elenco do São José Esporte Clubes, de São José dos Campos, no interior paulista.

Na bagagem a cuiabana carrega um Mundial de Clubes, uma Libertadores, um Campeonato Brasileiro, um Campeonato Paulista e a mais recente e importante de suas medalhas: o ouro de Toronto.

Cuiabá, a cidade que foi uma das sedes da Copa do Mundo de 2014 e tem a Arena Pantanal, que é um dos maiores estádios da América Latina, deixa escapar uma atleta do nível de Bruna Benites por falta de apoio ao futebol feminino.

DAVID MOURA – 27 anos, é cuiabano, pesa 130 kg, mede 1.92m e pratica judô em Cuiabá. David Moura Pereira da Silva ganhou o ouro no judô em Toronto na categoria acima de 100 kg. Para chegar ao lugar mais alto do pódio, com 13 segundos de luta aplicou um ippon e venceu o equatoriano Freddy França.

Convocado de última hora para substituir Rafael Silva, que lesionou o tendão do músculo peitoral maior direito, David Moura não decepcionou e se tornou o segundo judoca de sua família a ganhar medalha no Pan-Americano: seu pai, Fenelon Oscar Müller, faturou o bronze no Pan de 1975, disputado em outubro daquele ano na Cidade do México.

ANA TIEMI – A levantadora Ana Tiemi Takagui nasceu em Nobres, no dia 26 de outubro de 1987, tem 1.89m e pesa 74 kg. No Pan em Toronto ganhou a prata em equipe com a Seleção de Vôlei do Brasil. Joga no Vôlei Bauru, na cidade do mesmo nome, no interior de São Paulo. Na bagagem carrega o ouro do Grand Prix de Tóquio, em 2009; e a prata da Copa dos Campeões, em 2009, no Japão.

Em 2011 MTAqui publicou o histórico de Ana Tiemi, no texto abaixo:

Dona Tila fazia das tripas coração para manter a casa limpa, mas a poeira vermelha não dava trégua naquele vilarejo num canto perdido do município de Diamantino, à beira da quase deserta Rodovia Cuiabá-Santarém, onde a malária era companhia constante, em meados dos anos 1980.

O lugar onde dona Tila vivia não tinha nenhuma estrutura, mas seus moradores sonhavam com o amanhã coletivo melhor. Uns cultivavam, outros abriam estabelecimentos comerciais, outros prestavam serviço. Cada um se virava como podia.

Transcorridos pouco mais de 20 anos a vila cedeu lugar a uma linda cidade-sede de um dos principais municípios agrícolas do Brasil, Nova Mutum, no Médio-Norte de Mato Grosso.

O sonho coletivo em Nova Mutum não tinha espaço para o esporte, principalmente para o vôlei, que exige quadra, treinamento diferenciado e até mesmo altura compatível aos atletas. No entanto, foi na área esportiva que a antiga vila conseguiu seu maior feito. De sua seleção feminina de vôlei mandou para o mundo a genialidade da levantadora Ana Tiemi, filha de dona Tila e orgulho da cidade fundada pelo advogado e colonizador José Aparecido Ribeiro.

Ana Tiemi Takagui é a cara de Nova Mutum. Nova, ousada, bonita, vencedora, respeitada e admirada. Seus pais, Cleneci Onghero Takagui, ou simplesmente dona Tila, e Toshio, são nisseis. Ela, de Santa Catarina, e ele, de São Paulo. Em épocas diferentes trocaram seus estados de origem por Nobres, cidade no ponto equidistante de Cuiabá a Nova Mutum, e ali se casaram.

Em 1985 o casal Takagui trocou Nobres por Nova Mutum, onde nem a poeira nem a malária impediu que dona Tila e Toshio gerassem aquela que mais tarde seria a maior estrela do vôlei de Mato Grosso e uma das principais do Brasil. Quando a menina nasceu, não havia hospital em Nova Mutum, e a saída foi um hospital na cidade onde os pais se conheceram e se casaram.

A poeira cedeu lugar ao asfalto. A cidade ganhou qualidade de vida e o casal Takagui criou seus filhos em paz. Ana Tiemi alcançou a idade escolar e foi matriculada na Escola Municipal Carlos Drummond de Andrade, onde conheceu e se apaixonou pelo vôlei.

A mãe de Ana Tiemi continua em Nova Mutum com parte da família. O pai, Toshio, é um rosto a mais na multidão dos dekasseguis que fizeram o caminho inverso de seus ancestrais ao Japão, e igual a eles, em busca do sonho da realização profissional que tanto pode estar de um ou de outro lado do mundo.

Jogando pela Seleção de Vôlei de Nova Mutum o talento de Ana Tiemi despertou o interesse do Colégio Afirmativo, em Cuiabá, que a levou para sua equipe. Daí os passos seguintes foram em direção a uma certa camiseta amarela respeitada no mundo inteiro.

Pela Seleção Brasileira Infanto-Juvenil, na Venezuela, faturou duas importantes conquistas: o Sul-americano e o título de melhor levantadora. Sua trajetória a levou à Seleção Juvenil e à medalha de ouro no Mundial da Turquia.

Incorrigível ganhadora de medalhas e títulos, Ana Tiemi acaba de botar na galeria de suas conquistas o Grand Prix, disputado no Japão, que deu ao Brasil seu octacampeonato nessa competição.

Nova Mutum. Cuiabá. Mato Grosso. Minas Tênis. Osasco/Nestlé. Brasil. O mundo é pequeno para Ana Tiemi, a musa morena nipo-brasileira que é a pedra angular na renovação do vôlei da seleção de Bebeto de Freitas.
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LEANDRO APARECIDO – O cacerense Leandro Aparecido da Silva tem 39 anos, 1.74m e pesa 68 kg. Cavaleiro, Leandro Aparecido disputou o adestramento por equipe no Pan, em Toronto, e faturou o bronze juntamente com seus companheiros João Victor Marcari Oliva, Sarah Waddell e João Paulo dos Santos; João Victor é filho da ex-jogadora de basquete Rainha Hortência.

Para ajudar sua equipe a conquistar a medalha, Leandro Aparecido (com Di Capri) totalizou 69,026% na prova. A prata ficou com o Canadá, com 454,938% e o ouro com os Estados Unidos, com 460,506%.

O cavaleiro mato-grossense morava na zona rural de Cáceres, na fronteira com a Bolívia, e deixou aquele município quando ainda era criança. Foi para Araçoiaba da Serra (SP), onde reside. Disputa provas no eixo Rio-São Paulo e em 2008. Participou das Olimpíadas em Londres. O calendário do hipismo de Mato Grosso não inclui a modalidade do adestramento disputado por Leandro Aparecido.

Fonte:Revista MTAqui

Montreal