Delação monstruosa ou abraço do afogado?
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Delação monstruosa ou abraço do afogado?

Fonte: Da Redação
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Foto - Marcus Mesquita/MidiaNews

De tudo que vem sendo divulgado até o momento sobre a tal “delação monstruosa” de Silval Barbosa, muito pouco parece reunir força jurídica para efetivamente incriminar alguém. Ao que parece, o ex-governador está revoltado por não ter sido “acobertado” pela classe política e outros poderosos e então resolveu enlamear todo mundo, até porque qual seria a diferença, em sua atual situação, de seguir respondendo vários processos por corrupção com mais um de falso testemunho? Sabedor da ânsia de toda a imprensa e da população em geral pelo conteúdo de delações, Barbosa resolveu sair apontando o dedo para todos os lados. Dentre o que foi divulgado na Folha de São Paulo e também pelos veículos de comunicação no estado, chama atenção os possíveis nove vídeos de deputados estaduais da legislatura anterior recebendo propina para garantir apoio ao seu Governo na Assembleia Legislativa de Mato Grosso. Diz-se que um deles seria o atual prefeito de Cuiabá, Emanuel Pinheiro (PMDB) e um outro de um político que hoje é parlamentar em Brasília.

Pois bem, os tais vídeos ainda estão em poder da justiça e é necessário, antes de qualquer julgamento, lembrar que é preciso ter cuidado no julgamento antecipado e um caso recente pode exemplificar isso. Antes de ter contato com o grande público, uma gravação de áudio feita pelo empresário e dono da JBS, Joesley Batista, com o presidente Michel Temer (PMDB), pareceu muito maior do que realmente se mostrou posteriormente. O jornal “o Globo” publicou o conteúdo do áudio antes dele ser ouvido, aparentemente até pelo jornalista, e causou o maior alvoroço. A expectativa de todos era sobre uma gravação incontestável de Temer cobrando de Joesley proteção ao ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB), bem como a compra de seu silêncio na cadeia. Quando a gravação, de fato, veio à tona, o que ficou claro a todos que a ouviram foi apenas uma confissão do empresário sobre o contato com Cunha, sem nenhum tipo de configuração que fosse a mando do presidente, como inicialmente foi apontado pela matéria que saiu antes da divulgação dos áudios.

Voltando a Mato Grosso, é prudente aguardar e lembrar que quem surge como “dono das informações” é um criminoso, réu confesso, que com certeza pode ser chamado de governador mais corrupto da história do estado. A partir daí, tudo que um cidadão com esse “currículo” disser deve ser visto apenas como um meio para possibilitar chegar a algo, jamais um fim. Alguém que rouba recursos que iriam para hospitais, escolas e estradas, gerando com isso mortes e um futuro comprometido para a camada mais pobre da população, naturalmente carrega consigo a arte natural de mentir. Até agora, saiu na imprensa que o deputado federal, Carlos Bezerra (PMDB),  teria recebido R$ 1 milhão de um esquema de propina proveniente do programa MT Integrado. Desta mesma fonte fraudulenta, segundo Silval, teria se locupletado o atual senador, Wellington Fagundes (PR), na época deputado federal e responsável, segundo o ex-governador, de ter indicado o então secretário de Transporte e Pavimentação Urbana (Setpu), Cinésio Nunes. Bezerra e Wellington são os casos mais emblemáticos dentre os citados na delação porque sempre foram defensores de Silval, não só durante sua gestão, mas até depois dela. Fagundes, chegou a visitar o peemedebista na prisão e disse recentemente que o ex-governador é do “bem”.

Dentre as outras personalidades envolvidas pelo peemedebista delator, estão conselheiros do Tribunal de Contas do Estado – TCE, que teriam se beneficiado de cerca de R$ 53 milhões do mesmo MT Integrado. Segundo Silval, o TCE chegou a intervir e paralisar a execução do programa, em um momento específico que a propina deixou de cair. Os conselheiros também já haviam sido acusado pelo ex-secretário da Casa Civil de Silval, Pedro Nadaf, de terem exigido a bolada como condição para aprovarem as contas do governador. Além da côrte de contas, o atual ministro da Agricultura, Blairo Maggi (PP), é outro que foi “lembrado” por Silval. Ao lado de Cidinho Santos (PR), seu suplente e hoje titular da cadeira de senador da República, bem como o próprio Wellington e mais três deputados federais – atualmente com mandato – Blairo teria participado de um esquema para liberação de precatórios – montante relacionado a dívidas acumuladas pelo estado provenientes de sentenças judicial – a grandes empresas.

E para não dizer que não falou das flores, Silval ainda incluiu mais dois dos principais nomes da política mato-grossense em momentos nebulosos consigo: o atual governador Pedro Taques (PSDB) e o ex-prefeito de Cuiabá, Mauro Mendes (PSB). O delator afirma que houve um acordo de bastidores, que envolveu não só Mendes e Taques, como o próprio Blairo, para que ele (Silval) não financiasse a campanha de Lúdio Cabral (PT), então adversário do tucano nas eleições de 2014 que definiram o novo chefe do Executivo Estadual. Mendes e Blairo, segundo Barbosa, o orientaram a chegar próximo de Taques e ele então teria fechado o acordo com a condição de não ser “investigado” por Taques, ou seja, que o provável novo governador não abrisse as fraudulentas contas do estado para órgãos de fiscalização. O peemedebista ainda citou que, após isso, foi procurado por Mendes, que pediu a ele R$ 20 milhões para a campanha de Taques como forma de selar de vez o pacto e lhe garantir que ninguém olharia no retrovisor. O restante da história todos sabem: Taques eleito e Silval preso.

Blairo, Taques, Mendes e todos envolvidos e citados, especificamente sobre a questão da campanha de 2014, se negam ter negociado qualquer situação do tipo com o delator. Maggi, inclusive, disse que não participou de nenhuma reunião com o ex-governador, na época ainda no mandato, durante o período, e fez uma ponderação interessante em sua nota. Blairo sinalizou o fato de que se havia algum interesse quanto a proteção este partiria do próprio Silval, logo não faria sentido o delator ter sido o procurado, como aparentemente foi exposto em delação. Taques ressaltou o fato de ter tido suas contas de campanha todas aprovadas e afirmou que aguarda ter acesso ao conteúdo integral da delação de Silval para se pronunciar. A verdade é que diante das tantas turbulências que Silval anda causando para o lado da classe política de Mato Grosso, não se pode perder a técnica da coisa. Quem acusa tem o ônus da prova e, neste caso, o delator também é um acusador. Se Silval não tiver abastecido de mais coisa além de saliva, o que vai ficar aos envolvidos é apenas o desgaste político, que eventualmente talvez já seja suficiente para as pretensões atuais do ex-governador.

No frigir dos ovos, o que o brasileiro, inclui-se obviamente o mato-grossense, está vendo é que essas delações todas têm dado muita pauta e trabalho à imprensa, gerando assunto para discussões populares, mas têm sido, do ponto de vista de resultado final, “muita espuma e pouco chopp”.

Montreal