Corte maior de juro dependerá de inflação e exterior, dizem analistas
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Corte maior de juro dependerá de inflação e exterior, dizem analistas

Fonte: Do G1, em São Paulo
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O Banco Central manteve o ritmo de cautela ao cortar pela segunda vez neste ano a taxa básica de juros para 13,75% nesta quarta-feira (30), em 0,25 ponto percentual. Economistas ouvidos pelo G1 acreditam que o órgão pode acelerar a redução da Selic nas próximas reuniões, mas não há consenso de quando isso pode acontecer.

Um corte mais forte nos juros é considerado um gatilho para a recuperação da economia em meio a um cenário de prolongamento da recessão, com baixo investimento e fraqueza do consumo. O IBGE divulgou nesta quarta que o PIB caiu 0,8% no 3º trimestre em relação ao trimestre anterior. Foi a sétima retração seguida nessa base de comparação – a mais longa de toda a série histórica do indicador, que teve início em 1996.

O Comitê de Política Monetária (Copom) sinalizou que a trajetória de queda da Selic – que já era esperada em meio à recessão da economia – estará sujeita aos indicadores e projeções de inflação, da atividade econômica e do cenário externo.

Corte maior dependerá da inflação
“Pela primeira vez o BC indica em seu comunicado que a magnitude da flexibilização monetária [ritmo do corte dos juros] dependerá das projeções e expectativas de inflação e pode se intensificar se a recuperação da economia for mais demorada”, avalia o economista-chefe da Opus Gestão de Recursos e professor da PUC/RJ, José Márcio Camargo.

Segundo Camargo, o recado do Copom sugere que se a economia continuar crescendo abaixo do que se espera e se as projeções de inflação convergirem para a meta central de 4,5% ao ano, “pode significar um corte maior de juros em janeiro”, quando acontece a próxima reunião do Copom.

Para o economista-chefe do Banco Votorantim, Roberto Padovani, o comunicado do BC deixou a porta aberta para um possível ritmo mais forte de corte nas próximas reuniões, desde que as expectativas de inflação melhorem.

“A questão é tentar antecipar próximos passos. A leitura que fizemos é que ele está deixando as portas abertas. Por um lado ele fala que esse processo de convergência é compatível com o ritmo gradual de flexibilização. No comunicado anterior, ele tinha falado que era compatível com o ritmo moderado e gradual”, afirma Padovani.

Na avaliação do economista, entretanto, o BC tem dado sinais de cautela e de que não intensificará o ritmo de corte de juros antes de indicativos claros de convergência da inflação para o centro da meta de 2017.

Franqueza da economia persiste
A queda de 0,8% do PIB no terceiro trimestre confirmou as expectativas de que a economia ainda não deu sinais de recuperação, o que poderia induzir a um corte mais acentuado da Selic para o próximo ano.

“A atividade econômica está fraca e jogando a inflação para baixo. Ao mesmo tempo, o governo está avançando em reformas, o que significa tornar o cenário mais previsível. Isso tudo, na minha opinião, permite afrouxamento [corte maior de juros]”, avalia o economista-chefe do Votorantim.

 

Incertezas com o cenário externo
Além dos indicadores da economia brasileira, também devem pesar o ambiente incerto no cenário externo, que ficou maior após a inesperada eleição de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos. O resultado deixou os preços dos ativos mais voláteis e pressionou a cotação do dólar frente ao real (o real mais fraco tende a pressionar a inflação).

Segundo Camargo, da PUC/RJ, essas incertezas podem ser o componente de cautela do BC para segurar o ritmo de queda da Selic por mais algum tempo. No comunicado, o órgão menciona que a “volatilidade dos preços de ativos indica o possível fim do interregno benigno [ciclo de liquidez de recursos que beneficiou os mercados emergentes]”.
Para Michael Viriato, coordenador do laboratório de finanças do Insper, o corte dentro do esperado confirma a análise do mercado de que a vitória de Trump trouxe mais incerteza. “O BC deixou um pouco claro que o ritmo provavelemente pode ser mais lento do que anteriormente imaginado”, disse.

Para ele, o ritmo dos próximos cortes irá depender das primeiras medida que forem anunciada por Trump e do andamento da reforma da Previdência no Congresso. “Existe uma possibilidade do BC eventualmente surpreender mais para frente, não no curto prazo, se os riscos externos e fiscais forem mitigados”, disse.Previsão para 2017
Para o fechamento de 2017, o mercado financeiro prevê que a taxa Selic 10,75% ao ano – o que pressupõe continuidade do processo de corte dos juros no ano que vem, segundo o boletim Focus do Banco Central.

A taxa básica de juros é o principal instrumento do BC para tentar conter pressões inflacionárias. Pelo sistema de metas de inflação brasileiro, a instituição tem de calibrar os juros para atingir objetivos pré-determinados.

As taxas mais altas tendem a reduzir o consumo e o crédito, o que pode contribuir para o controle dos preços. Quando julga que a inflação está compatível com as metas preestabelecidas, o BC pode baixar os juros.

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central reduziu a taxa básica da economia brasileira pela segunda vez seguida nesta quarta-feira (30), de 14% para 13,75% ao ano, um corte de 0,25 ponto percentual.

O que diz o Banco Central
O Copom informou nesta quarta que entende que a “convergência da inflação” para a meta central de 4,5% no horizonte relevante para a condução da política monetária, que inclui os anos de 2017 e 2018, é “compatível com um processo gradual de flexibilização monetária [corte de juros]”.

Segundo o BC, suas projeções indicam um IPCA – a inflação oficial – ao redor de 6,6% para este ano e entre 4,4% e 4,7% para 2017. Para 2018, a estimativa varia de 3,6% a 4,6%.
Para 2016, 2017 e 2018, a meta central é de inflação determinada pelo Conselho Monetário Nacional é de 4,5%. Entretanto, o sistema prevê um piso e um teto, que é de inflação em 6,5%, em 2016, e em 6% em 2017 e 2018.

A instituição acrescentou que a “magnitude da flexibilização monetária e a intensificação do seu ritmo” [de redução da taxa básica] dependerão das projeções e expectativas de inflação e da evolução dos fatores de risco.

“Nesse sentido, o Copom destaca que o ritmo de desinflação nas suas projeções pode se intensificar caso a recuperação da atividade econômica seja mais demorada e gradual que a antecipada. Essa intensificação do processo de desinflação depende de ambiente externo adequado”, acrescentou a autoridade monetária.

Segundo o BC, indicadores sugerem que “atividade econômica aquém do esperado no curto prazo, o que induziu reduções das projeções para o PIB em 2016 e 2017”. “A evidência disponível sinaliza que a retomada da atividade econômica pode ser mais demorada e gradual que a antecipada previamente”, informou.

Avaliou também que a “inflação recente mostrou-se mais favorável que o esperado, em parte em decorrência de quedas de preços de alimentos, mas também com sinais de desinflação mais difundida”.

Por outro lado, o BC avaliou que “sinais de pausa” no processo de desinflação de alguns componentes do IPCA mais sensíveis ao ciclo econômico e à política monetária (definição dos juros) persistem, o que pode sinalizar “convergência mais lenta da inflação à meta”; e que o processo de aprovação e implementação das reformas e ajustes necessários (PEC do teto e reforma da Previdência) na economia é “longo e envolve incertezas”.

Montreal