Como uma fake news cria um Estado Novo

Como uma fake news cria um Estado Novo

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Foto - Reprodução

Por Aldo Tavares

Em 10 de novembro de 1937, Getúlio Vargas dá o golpe do Estado Novo, deixando no país marcas profundas de autoritarismo. Um fato que determina a ruptura com a Constituição de 1934 passa por Olímpio Mourão Filho, capitão do Exército e diretor do serviço secreto da Ação Integralista Brasileira, cuja mão escreve o Plano Cohen, vindo a público em 30 de setembro, 41 dias antes do golpe de 1937. Por meio dele, uma fake news instaurou um novo curso na história de nosso país.

Ao ser emitido o plano pelo general Góis Monteiro, chefe do Estado-Maior do Exército, no programa oficial da rádio “Hora do Brasil” (atualmente “Voz do Brasil”), a população acredita que comunistas internacionais e brasileiros se preparam para derrubar Getúlio e tomar o poder. Dessa forma, dissemina-se a “notícia verdadeira” de que existe uma ameaça vermelha, “verdade” para criar um ambiente emocional que legitimasse o golpe.

No dia seguinte, a imprensa escrita publica o documento, assinado pelo líder comunista Bela Cohen – governante da Hungria entre março e julho de 1919 – e com uma lista negra de políticos brasileiros. Em 1º de outubro, Getúlio Vargas solicita ao Congresso Nacional a decretação do Estado de Guerra. Semanas depois, no Rio de Janeiro, o Exército cerca o Congresso Nacional. Outorga-se a nova Constituição.

Embora tenha sido escrito por um integralista, a natureza da carta fake não pertence à extrema-direita ou à extrema-esquerda, e sim à natureza do poder, pois é natural ao poder jogar ou brincar com a aparência das coisas. Desde Platão, passando por Nicolau Maquiavel, cabe ao governante – e somente a ele – fazer uso de uma mentira nobre. É Platão quem nos ensina sobre essa mentira na sua clássica obra “A República”. Ela é distinguida de outra, a mentira falsa.

Quando assistimos a peças de teatro – por exemplo, “Pagliacci”, dirigida por Chico Pelúcio; e “Grande Sertão: veredas”, direção de Bia Lessa –, sabemos que a mentira falsa se apresenta diante dos nossos olhos; é uma mentira que leva ao palco a vida, sem que ela seja representação de algo real, quer dizer, a vida real sobe ao palco para ser falsa. Platão chamaria tais peças de mentira falsa, típicas de encenações criadoras. Se na vida cotidiana os personagens sociais escondem suas falhas, visto que não podem expor suas fragilidades, a arte da mentira falsa faz o inverso: ela não só apresenta as falhas que o real esconde como também as amplia para que sejam vistas, sentidas e pensadas. É quando descobrimos que “falso” e “falha” têm sentidos compartilhados (e possuem a mesma origem etimológica), pois o falso expõe as falhas do real quando o próprio real sobe ao palco.

“E a mentira nobre?”, pergunta-me o leitor. Nessa mentira, o movimento tem sentido oposto. Ao invés de o real ir ao palco do falso, é a mentira falsa que será representação na realidade, ou seja, aquilo que é falso é ajustado ou amoldado pelo real para ser verdade, a tal ponto de os personagens sociais não verem a falha existente. O ajuste é tão preciso que a mentira se mostra como verdade; assim, para todos, exceto para o governante, não existirá mentira, e o que aparece é o que é.

Quando o plano tornou-se público em 1937, o homem comum acreditou ser verdade, sem poder (des)cobrir que era mentira adaptada ao real; pois, uma vez fabricada sob medida, a mentira torna-se uma verdade. Não podendo-se ver falha, não pode ser falsa. Quem escreveu tal plano, supostamente comunista, foi um integralista, representante do fascismo brasileiro. Essa assimetria ideológica, por causa de sua condição inverossímil, não poderia aparecer na realidade pela razão de que não seria verdadeiro aos olhos do público.

Vargas, aprendiz de Platão. A verdade legitimadora do golpe do Estado Novo seguiu os ensinamentos platônicos sobre a mentira nobre como garantia de cidade bem ordenada Se não é nosso primeiro fake news político, ao menos foi um que decidiu nossa história. Portanto, muita atenção, caro leitor: fake news faz verdade. Só depois de quase 81 anos sabemos, agora, que o Plano Cohen não passou de uma mentira de algo ou de alguém que pretendeu ser o que é, que pretendeu ser verdade, e nada mais. Como fake news, o Plano Cohen foi uma verdade estabelecida capaz de ocupar o real e representar o poder. Mas aí já nos foi muito tarde: o lobo, sob a pele de cordeiro, queimou livros de livrarias, de bibliotecas e de escolas; torturou a oposição, arrancando unhas e dentes com alicates; colocou fio de cobre quente na uretra de algum comunista, que jamais havia cogitado escrever algum astuto Plano Cohen.

Aldo é Professor de Filosofia e livre-pesquisador do Ateliê de Humanidades

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