Com habilidade, Temer traz bastidores da greve para 1° plano
Adventista



Com habilidade, Temer traz bastidores da greve para 1° plano

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Foto - Adriano Machado/Reuters

O presidente da República, Michel Temer (MDB), anunciou que mandará as forças federais de segurança – Exército, Marinha, Aeronáutica, Força Nacional de Segurança e Polícia Rodoviária Federal (PRF) – para desobstruir as pistas interditadas pelo movimento grevista dos caminhoneiros. A medida vem poucas horas depois do Governo se reunir com representantes do setor e firmar um acordo de uma trégua de 15 dias nas manifestações, enquanto que em contrapartida atendeu 12 reivindicações de uma lista apresentada ao Planalto.

Numa análise de bastidores de tudo isso, porém, para quem agrega ao contexto o ano eleitoral e outros ingredientes, o que fica claro é que Temer, de fato, é um político de uma sensibilidade de realidade fora da média. A fala do ministro chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, quando questionado sobre o preço da gasolina, foi simbólica: “Estamos tratando de óleo diesel. Não tratamos de outro combustível. Por quê? Porque o movimento dos caminhoneiros estava centrado no óleo diesel”. A mensagem enviada a maioria do povo que está sem gasolina, ou pagando R$ 10,00 o litro, é clara: não era por vocês que lutavam…

Embora o romantismo tomou conta de muitos corações desavisados, o posicionamento de Temer e equipe foi o de escancarar que o movimento todo é feito baseado unicamente nos interesses dos grandes investidores e lideranças sindicais do setor de transportes. A alíquota da Cide (Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico) sobre o diesel este ano vai ser zerada, a redução de 10% nos preços do diesel, já anunciada pela Petrobras, será mantida por 30 dias. A possibilidade de contratualizar com a Conab, sem licitação, até 30% da sua demanda de frete, é outra conquista muito ressaltada.

O Planalto teve o cuidado de pinçar em meio aos pedidos basicamente aqueles que deixam evidente que é um movimento setorizado, diminuindo a ideia de que é uma manifestação coletiva. No entanto, uma ala de caminhoneiros autônomos, que apoia a presidente da República o deputado federal, Jair Bolsonaro (PSL), reforçada por outros ativistas, resolveram aproveitar toda confusão e lançaram também sua lista a Temer e hoje são os principais mantenedores do movimento. Entre os pedidos deste grupo, por exemplo, está o “voto impresso”, que é praticamente um mantra do pré-candidato da extrema direita.

Percebendo a politicagem que está ocorrendo, o atual presidente deu o “pulo do gato”. Enfrentará esse pessoal, que classificou como “radicais”, exatamente com o exército, que é uma das forças que os militantes julgam estar do seu lado e que o próprio pré-candidato projeta que fará parte ativa da composição de seus ministérios. Ocorre que agora, caso haja resistência, as forças armadas e demais corporações convocadas não terão outra maneira senão agir com a contundência necessária.

Caso exista necessidade que isso seja feito até com um pouco mais de repressão, as forças armadas podem ver reduzidas toda essa boa aceitação que hoje possuem junto a sociedade, que por ora ainda apoia os grevistas, até porque certamente a mídia vai retratar todo o ocorrido e chamar de violência. Exército com a imagem arranhada não é bom para Bolsonaro, que teria seu discurso enfraquecido. Os ativistas que apoiam o parlamentar do Rio de Janeiro não terão outra saída a não ser sair da frente, apesar que raciocinar não é o forte do grupo.

Aos politiqueiros, a quem estava só preocupado com as pautas umbilicais e a quem não sabe sequer o que está fazendo, só haverá um caminho: o fim da greve. A verdade é que Temer e seus aliados se anteciparam todos cenários possíveis e estão conseguindo frear a hipótese do movimento criar asas se alastrar para outras pautas, como foi com os R$ 0,20 em São Paulo, em 2013.  A verdade é: ninguém vira presidente à toa…