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Valdemar Souza Machado – Cartunista e artista plástico – Rondonopolitano

 

Rondonfolia 2017 – Um carnaval sem fim!

Livro em construção

[…]

 

Capítulo “28”

 

Chamegão na “ad judicia”

5.12.17

Ainda falta receber grande parte dos meus honorários, e respondendo às indagações acerca do Rondonfolia 2017, realmente assinei hoje a “ad judicia” para o Dr. Júlio César Guedes Aguiar me representar. Também respondo aqui a primeira pergunta da Prova Quádrupla, criada pelo rotariano Herbert J. Taylor.

Eis as informações que passei ao advogado, afirmando que foi o Ubaldo Tolentino de Barros quem me contratou como consultor do carnaval, em novembro de 2016, ainda não investido do cargo ao Paço Municipal, e tendo como testemunhas o Roberto Nunes (A Tribuna) e o Evandro Oliveira (Folha Regional). O Robertinho que me levou ao Ubaldo e com Evandro, a mando do Ubaldo, bati o martelo do valor que deveria ser pago em duas parcelas, dia 10 de janeiro e 10 de fevereiro de 2017, ratificado pelo Ubaldo em seguida.

A primeira reunião de tratativas e briefing foi no dia 14/10/16, no escritório do Ubaldo, na Funerária São José, com a presença do Roberto Nunes, quando nós dois saímos de lá para fazer uma visita precursora no local proposto, que foi o estacionamento do estádio Engenheiro Luthero Lopes. A segunda reunião, também na empresa, com os mesmos participantes foi no dia 18/10/16, quando apresentei o “Projeto Nhô Rondon – Relatório I”, conforme cópia anexa, com dois trios, duas bandas, dez camarotes de 5m X 5m, 20 bares, entre outros, que foi orçado em R$ 300.000,00, num carnaval enxuto, bancado pela iniciativa privada, conforme o pedido do contratante.

Quando fui participar de outra reunião já na casa do contratante, numa edícula de espaço amplo, com cozinha e próxima a piscina, logo após a entrega do primeiro relatório, já houve a divulgação pelo Ubaldo, que haviam contatados dois trios elétricos, duas bandas da Bahia e bandas locais ao custo total igual ao projeto inicial, o que me assustou. Ponderei sobre os valores, insisti na reavaliação dos preços, e informei que o projeto tomaria valor vultoso, e participaram da reunião o Evandro Oliveira e o Engenheiro/Urbanista Bruno Laranjeira, por várias oportunidades, mas fui voto vencido.

Laborei o “Relatório II” e fiz os encaminhamentos para o contratante, conforme cópia apensa.

Em várias reuniões na casa do contratante à partir de novembro, sendo que em dezembro de 2016 as reuniões passaram a ser semanais, assíduas e frequentes, em diversas oportunidades, e algumas por duas vezes semanais, com média de 20 pessoas por reunião – cataloquei mais de 80 pessoas que passaram por lá, pelo menos uma vez, conforme rol apenso – a partir das primeiras reuniões, quando o contratante entoou a todos, que fui contratado para ser o consultor do carnaval 2017, onde há fotos, vídeos e o próprio testemunho e constatação dos presentes.

“’Hermério’ será o consultor e o único que vai receber pagamento”, disse Ubaldo, por diversas vezes, conforme áudios anexos.

Produzi o “Projeto Publicitário/Broadside – Relatório III”, com todas as informações possíveis e entreguei ao contratante, que me orientou entregar cópia ao Evandro Oliveira para proceder aos contatos e vendas publicitárias, o que fiz.

No dia 2 de dezembro de 2016, em discurso do Ubaldo, no evento “Jantar Italiano”, que promovi junto ao Cleomar Pilar, no Grand Beer, ele confirmou a todos pulmões que eu fui contratado por ele para ser o consultor do carnaval 2017, quanto havia mais de 140 convidados presentes.

Dia 10 de dezembro de 2016, o contratante deu um jantar na sua residência aos vereadores, vereadores eleitos, prefeito eleito, primeira-dama e convidados, futuros secretários municipais, diretores de autarquias, coordenadores e convidados, quando eu apresentei o projeto do Rondonfolia 2017, e ali foi dito pelo Ubaldo que eu era contratado como consultor do evento, então confirmando a contratação e todos são testemunhas, uma vez que há fotos e vídeo do evento.

Na data de 15 de dezembro de 2016, foi realizada reunião na casa do Ubaldo, com a Coordenação de Segurança, que informou sobre a parceria com a Biptel/Interfibras, que disporia cerca de 30 câmeras de monitoramente, com equipamentos direcionados para a entrada, transmissão on line para o mundo via Internet de fibra ótica.

Noutra reunião na casa do contratante, no dia 16 de dezembro de 2016, com as coordenações, foi apresentado o senhor José Orsi, que cuidaria da Coordenação de Comércio de Alimentos e Bebidas. Fiz uma breve explanação do carnaval, às Coordenações de Blocos e Segurança.

Sempre coloquei minhas posições de forma clara, transparente e fiz questão de informar da minha posição política, que não aceitava pagamento com emprego futuro e nem indicaria quaisquer fornecedores. Fui contra a venda de bebidas destiladas, preços definidos, entre outros. Preocupou-me a recusa do senhor José Orsi para ajudar na coordenação dos bares, poucos dias depois, alegando que a todo momento o projeto sofria alterações, principalmente nas quantidade de bares propostos, valores a ser comercializados e a insegurança que o evento estava transparecendo; e o volume que se deu ao evento, com a promessa de captação de recursos para sua realização, questão sempre defendida que seria realizada com sucesso pelos contatos e relações pessoais do contratante com a sociedade rondonopolitana, e que se não alcançasse o valor pretendido completaria com suas próprias expensas.

Pensei em desistir algumas vezes, pois eram comuns as mudanças constantes, as inseguranças e eu só ficava sabendo a cada reunião que participava, sendo sempre voto vencido.

Apresentei o “Relatório IV” – ora anexo -, numa reunião restrita, na sala de visitas da moradia do contratante, em companhia do jornalista Roberto Nunes, no dia 21 de dezembro de 2016, quando pedi para me afastar do evento, e que o relatório apresentado facilitaria a execução do evento, por outro consultor/produtor, mas fui convencido a continuar com meus serviços.

Dia 10 de janeiro, em reunião no gabinete do prefeito Zé Carlos do Pátio, foi apresentado o projeto que eu elaborei como consultor do Rondonfolia 2017, com várias pessoas presentes e também foi confirmado o meu trabalho pelo contratante, onde explanei ao prefeito e demais participantes sobre o carnaval, e todos podem ser testemunhas, pois viram essa confirmação.

Falta receber uma boa parte dos meus serviços. O Ubaldo divulgou que eu era contratado como consultor em várias reuniões que fez na casa dele, inclusive com a presença do prefeito, presidente da Câmara, vereadores, coordenadores e convidados, que vou pedir ao jurista para arrolar todo mundo como testemunha, se possível, duas das três maiores autoridades da cidade.

Passei as mais diversas dificuldades e deveria ter desistido do projeto, inclusive como o contratante o fez, não comparecendo ao evento e nem atendendo as demandas, a partir do penúltimo dia do carnaval, quando passei a tarde toda na sua moradia, junto aos integrantes do Gabinete de Crise, que nada resolveu, mas não o fiz para preservá-lo, a instituição maior da cidade e a própria cidade. Fiquei muito triste com o sangramento ocorrido ao evento e aos problemas suscitados, e quando se resolveu cancelar as bandas não havia mais tempo hábil, sendo a quebra de contrato e os ruídos maiores que os valores contratados, também avaliei a ordem do contratante que poderiam fazer o show, que ele pagaria depois, o que foi feito, e após os contatos alguns artistas atenderam, outros nem subiram nos trios.

Quando se pensou até em cancelar o evento, na segunda-feira, dia 27/02 fui contrário.

Quanto aos blocos de carnaval foi dito que haveria dinheiro para pagamento da premiação – como todas as outras despesas do carnaval -, e que a quantidade mínima dos blocos deveria ser de 200 participantes, o que consta em atas, cópias anexas, no entanto eles só aceitaram participar se tivesse apenas a diminuição de pontos para aqueles que não completassem a quantidade mínima, o que informei incontinente ao meu contratante. Os ruídos de apoio a determinados blocos, denúncias e falatórios não os propaguei até então. Quando o contratante participou das reuniões com os blocos foi ratificado o pagamento dos prêmios e confirmada às demandas ocorridas até aquela época. E, durante o evento foi-me informado para desclassificar os blocos, com o intuito de não pagar a premiação, eu não poderia ser conivente, uma vez que reza diferente do que foi tratado nas reuniões, em atas e no regulamento.

Dia 26/02/16, encaminhei o “Relatório V” ao Ubaldo, quando informei sobre o andamento do evento, onde enumerei as situações, como:

“- Temos problemas pontuais, como a segurança despreparada, a portaria sem qualificação, os voluntários que não podemos contar, pois não atendem as ordens, precisamos pedir para ver se ajudam e se estressam à toa, os coordenadores preocupados em aparecer nos camarotes e nos trios, alimentação insuficiente, todo mundo querendo fazer tudo, mas não fazem o necessário, pequenos problemas de estrutura que a empresa não resolve.

– Consegui duas pessoas que estão ajudando no atendimento das equipes, o que me aliviou.

– Como estou trabalhando sem verba de produção, e para não perder tempo passando pequenos problemas para você, assumi alguns débitos, que não foram possíveis adiar e gostaria que me ajudasse a resolver:

01 – um dia de jantar das bandas no valor de R$ 331,00.

02 – 34 marmitex por dia, durante os 04 dias para os cordeiros e o pessoal da limpeza/catação de recicláveis, que precisavam se alimentar melhor, no total de R$ 1.360,00.

03 – lanches que comprei a crédito nas barracas para alimentar todas as equipes envolvidas, que já faz um total de R$ 1.100,00. Sendo que a partir de hoje o Roberto Nunes vai doar/fazer 120 lanches para ajudar a resolver o problema.

04 – lembramos que falta efetuar o pagamento das pulseiras dos camarotes, que autorizou fazer.

Peço a sua ajuda para resolver esses problemas.

Quanto à segurança é o maior problema e me preocupa muito.

Tem muita gente subindo nos trios e precisaria de alguém com pulso para controlar esse acesso, pois o risco de acidente é muito grande”.

Todas as compras foram autorizadas no mesmo dia de entrega do relatório.

Ao término do evento apresentei o “Relatório VI”, com as informações constantes do Rondonfolia 2017, e o Ubaldo me pediu para entregar ao Secretário Municipal de Cultura, o senhor Humberto de Campos, que me orientou a relatar todos os débitos que pudesse levantar com pessoas e empresas fornecedoras do carnaval, para ele apresentar ao prefeito, o que fiz, após contatos com os fornecedores, e foi entregue no dia 04/03/17.

Quando da cobrança da diferença dos meus honorários, o contratante me informou para procurar a Prefeitura Municipal de Rondonópolis ou a empresa licitada, não o fiz e aguardei até o momento para receber de forma amistosa, no entanto vamos litigar.

A frieza como fui tratado após o evento denotou o desinteresse e o não comprometimento para o cumprimento do meu contrato, mesmo que apalavrado, mas com testemunhas, mensagens eletrônicas, áudios e vídeos, relatório de despesas e receitas produzidas pelo próprio contratante, com textos que denotam ser de sua autoria, que devem estar nos seus arquivos eletrônicos, cópia ora anexa. Além dos débitos feitos por ordem do contratante – agora investido no cargo de Vice-prefeito – que estão afetando minha situação financeira, pessoal e de saúde, pois já sofri protesto e cobrança judicial, o que repassarei a quem de direito, com o devido ônus de reparação de danos, no momento oportuno, inclusive com os litisconsortes devidos.

Esta é a minha última instância.

 

 

Hermélio N da Silva

Consultor do Rondonfolia 2017

 

 

Ao amigo Valdemar Souza Machado

Obra do artista Valdemar Souza Machado

Vi também,

aquilo

que o artista viu.

Até o chilreio do grilo.

 

Debaixo

do pé de caju,

a lua

era o abaju.

 

Intensos,

Vibrantes,

Alheios,

Fluorescentes.

 

Namorico de jovens.

Eternidade

para um,

e a flor da idade.

 

Ele com muita paixão,

Ela a zapear.

É a pop art

Do meu amigo Valdemar.

 

11.12.17

 

Linha do tempo – breve

 

Rondonópolis – Mato Grosso

Obra de Calé Marien
Acervo da Câmara Municipal de Rondonópolis

Há sinais de vida humana desde 5.000 anos no sítio arqueológico Ferraz Egreja, no município de Rondonópolis.

No final do século XIX constatou-se a presença de índios Bororo.

1875-1890 – Instalação do destacamento militar em Ponte de Pedra, e comitivas de migrantes a procura de ouro e de pedras preciosas.

1902 – Formação do “Povoado do Rio Vermelho”.

1907/1909 – Comissão Construtora das Linhas Telegráficas, comandada por Cândido Rondon.

1915 – População em torno de 70 famílias.

1915 (10 de agosto de 1915) – Promulgação do Decreto Lei nº 395 que estabelecia uma reserva de 2.000 hectares para o patrimônio da povoação do rio Vermelho, por Joaquim da Costa Marques, presidente de Estado do Mato Grosso, cargo de governador à época.

1918 – Otávio Pitaluga conclui o projeto de urbanização da cidade, e é o responsável pela mudança do nome do povoado para Rondonópolis, em homenagem Cândido Rondon.

1920 – Rondonópolis passa s ser distrito de Santo Antônio do Leverger. No início da década de 1920 a cidade passa por problemas de enchentes, epidemias e desentendimento entre os moradores.

1922 – Inauguração do posto telegráfico.

1924 – Descoberta de garimpos de diamantes na região de Poxoréu.

1938 – Poxoréu foi elevada a município e Rondonópolis torna-se distrito daquela próspera cidade.

1930 a 1947 – A cidade continua despovoada.

1947 – Rondonópolis retoma seu rumo, como fronteira agrícola mato-grossense.

1948 – Domingos de Lima usa o projeto de Otávio Pitaluga para traçar o quadrilátero central da cidade.

1953 (10 de dezembro de 1953) – Emancipação política. Sendo o prefeito nomeado Rosalvo Fernandes Farias. O primeiro prefeito eleito foi Daniel Martins de Moura.

1950 a 1960 – Crescimento econômico através do campo. Período de migração de mato-grossenses, nordestinos, paulistas, mineiros, japoneses e libaneses.

Década de 1970 – Modernização do campo, descoberta da possibilidade de plantações da soja, demandas importantes da pecuária e do comércio. Grande migração de sulistas.

1980 – A cidade é classificada como o segundo município do estado em importância econômica, demográfica e urbana.

Década de 1990 – Torna-se “A Capital Nacional do Agronegócio”.

1975 (13 de maio de 1975) – Regulamentação do Brasão de Armas e da Bandeira do Município de Rondonópolis, que são de autoria do professor Arcionoe Antônio Peixoto de Faria, pela lei municipal 426.

1997 (22 de outubro de 1997) – Regulamentação da data de fundação de Rondonópolis, para 10 de agosto de 1915, pela Lei Municipal 2.777 de 22 de outubro de 1997. Data oficial do aniversário da cidade.

2000 (22 de março de 2000) – Inauguração do novo estádio “Engenheiro Luthero Lopes”, com capacidade para 19.000 pessoas. O primeiro gol foi de Ronaldinho Gaúcho (Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense).

2003 – Instituição do hino do município, através do decreto nº 3.764 de 09 de dezembro de 2003, que tem a música de Aires José Pereira e Elias da Silva, poema de Aires José Pereira, Elias da Silva e Sebastião Assis de Carvalho.

2013 (19.9.2013) – Inauguração do terminal ferroviário, pela presidenta Dilma Rousseff.

2017 (10.3.2017) – Cai o pé de Ipê-amarelo, parte do conjunto da Praça Brasil, que forma uma das sete maravilhas da cidade, derrubado pelo vento forte.

Imensa gratidão

 

Bela vida,

vivida,

intensa,

vívida.

 

Tem

pó.

O tempo

Não tem dó.

 

O cansaço

me perseguia,

o ânimo

se extinguia.

 

Veio

a graça,

oculta,

de amigo na praça.

 

Germinou

o grão.

Fez-se o pão,

imensa gratidão.

 

6.12.17.

Totó

10.2.09

Obra do Professor Paulo Branco – Caricaturista

 

– Vem cá, Totó! – disse o Antonio.

Atendi o chamado e sentei-me à frente do chefe. Esperei a bronca. Já estava acostumado com o timbre da voz dele e aquele não me era diferente. Eu já tinha quase oito anos de idade. Estava tarimbado com os acontecimentos.

– Fique sentado vigiando o portão, pois os moleques vão chutá-lo novamente e vamos dar um susto neles – falou e saiu.

Mesmo não sendo gato, ericei meus pelos negros e fiquei um bom tempo e nada dos meninos fazerem as brincadeiras deles. Já sentia o cheiro da comida e o barulho das panelas. Barulhos que se mudaram para pratos e talheres. Esperei mais um pouco até me chamarem. Fiz minha refeição e um bom quilo.

– Acorda, Totó, vamos sair – chamou-me o Antonio.

Antonio, um trintão cheio de saúde, moreno, cabelos negros encarapinhados. Gosta da vida boa, mas tem que ralar muito para criar a família, esposa e filha. Rodou as chaves na mão, da sua caminhonete C-10, movida a gás, com carroceria de madeira. Já havia visto meu chefe amarrar o câmbio com arame farpado daquele carro, quando duma viagem. Acho que as peças de reposição são muito caras por aqui, ou não têm no mercado, ou ainda, não temos grana suficiente para comprar. Os documentos da caminhonete eu nunca vi, como repete o Antonio: parece coxa de freira, existe mas ninguém vê.

A C-10 saiu bufando óleo lubrificante gaseificado pelo escapamento, trôpega como um bêbado ladeira abaixo, dirigida pelo Carlão, outro moreno arretado, pau para toda obra. Meia idade e de média estatura. Estacionamos num canteiro de obras e enchemos a carroceria de troncos de eucaliptos. Já estávamos chegando à cidade quando uma viatura da polícia mandou-nos parar. Foi um sacrifício, devido ao nervosismo e aos freios que não funcionavam bem. Havia necessidade de bombar o pedal diversas vezes até o óleo de freio alcançar os burrinhos de freio, quando alcançava, mas usava a redução através das marchas.

– Temos uma denúncia de que vocês furtaram madeira da construtora… – provocou o policial.

– Doutor, só pegamos umas toras que não serviam mais para a construção, porque vamos fazer um puxado para a patroa – falou o Antonio, todo explicativo também no gestual.

– Espero vocês na delegacia daqui uma hora – finalizou o agente.

Diferente do medo que as pessoas sentiam de mim, senti que até a C-10 ficou com medo, pois não queria mais pegar; tiveram que colocar um pouco de gasolina no carburador para ela desengasgar.

Passamos em casa e o Antonio falou do assunto para a patroa. Ela quase teve um troço, pois nunca teve nada com a polícia e coisa e tal. Descarregamos metade da madeira, por desconfiança de a perdermos totalmente. Chegamos à delegacia. O delegado perguntou um monte de coisa, menos sobre os documentos da caminhonete, graças a Deus. Mandou-nos devolver as madeiras no local que pegáramos. Antonio, todo nervoso, deixou o carro encostar  no muro, que teve algumas rachaduras. Ele não disse para o delegado, já com medo d’outra bronca. Aceleramos o carro, cumprimos a missão e fomos para casa. A patroa ficou feliz com nossa chegada e nunca mais reclamou do puxado para dar sombra para lavar as roupas de casa.

Voltamos às caçadas e pescarias, passatempos prediletos dos amigos. Eu sempre estava na carroceria, meu forte. Não me importava com a poeira das estradas em terra. Queria mesmo era sentir os cheiros das redondezas. Reparei que o tanque de combustível da caminhonete era um galão plástico que ficava na cabine, mesmo assim, insistiam em usar o GLP, pois era muito mais barato. Nem vou contar as peripécias, porque foram tantas que não daria conta, mas uma não vou deixar passar: dois dias de pescaria e já estávamos cheios de peixe e paca, quando o Carlão sugeriu mudarmos o cardápio para galinha, durante uma trucada. Opinião aceita e o sítio do vizinho foi visitado. Sem a honra da presença do dono. Duas foram as galinhas que tiveram os pescoços quebrados. Água fervente. Depenadas. Abertas e cortadas em pedaços. Cozidas e temperadas. Penas enterradas para não nos entregar. Vísceras aos peixes. As galinhas ao molho foram degustadas, à beira do riacho, ao sabor de caipirinha com limão galego. Um barco do Ibama subiu o rio, com o dono do sítio embarcado. Pareciam suspeitar de alguma coisa. Acenamos e convidamos para uma trucada, mas tinham coisas mais importantes a fazer.

Estava de butuca num canto da casa e num belo dia ouvi um papo que iríamos de mudança para Sumpaulo, mais precisamente Campinas. Não quis ir de imediato. Achava-me rural e não urbano. Foi uma correria para me pegarem e me alojarem na carroceria do pau-de-arara Mercedes-Benz cara chata, azul.

Saímos à meia-noite. Parecia mudança do dormiu e não amanheceu, para não pagar as contas. O motorista logo cansou e passou o volante para o Carlão. A chuva engrossou e a lona não cobria direito. Eu e mais dois humanos a dividir o espaço na carroceria, com a mudança, não havia jeito de não se molhar. O caminhão roncava mais do que barrão no cio. O Carlão soltava o caminhão na banguela. Dei uma olhadela no velocímetro e o ponteiro estava no km. Às vezes a chuva era tanta que os limpadores de para-brisa não davam conta de limpar e o motorista colocava a cabeça para fora para ver melhor. Veio-me uma saudade danada da C-10. Estava no olho da pintada. A pista era de mão única.

Paramos numa cidade para abastecer a condução e tomar café da manhã. Aproveitei para espreguiçar e fugir. Queria voltar para meu interior. Minha cidade querida. Depois de várias corridas, fui capturado e colocado na carroceria, agora com o incômodo de uma corda.

Campinas à vista. Vi que o Carlão entrou errado em alguns lugares, porque passei mais de uma vez no mesmo lugar. Se bem que nunca tinha visto tanta casa colocada uma em cima da outra, até parecia que iam cair. Tudo igual. Estacionamos num espaço da avenida e o Carlão ficou lendo os letreiros dos ônibus, quando passou um específico ele desbancou atrás. Chegamos ao bairro Campos Elíseos. Desci, espreguicei-me e dei algumas sacudidelas para espantar o frio, a água e alguns carrapatos.

Dois anos meus se passaram. Estava sentado próximo do Antonio, quando ele adverte:

– Totó, fique de olho nos moleques que vão apertar a campainha e sair correndo. Quero dar um susto neles.

– Au, au – respondi com minha frase predileta.

Dheisiel Barbosa - artor - 17-02-17Falar de Artes Cênicas em Rondonópolis, parece algo tão fantasioso quanto o mundo de Alice no País das Maravilhas. Mas há cada tempo que passa tem se tornado mais visível o trabalho de pesquisa, estudo e de investigação cênica que grupos de nossa cidade tem se dedicado. Rondonópolis, uma época atrás, foi polo de teatro, atuante no cenário estadual e nacional, nossa cidade já foi palco do Festival de Teatro da Federação Mato-grossense de Teatro, época que havia cerca de 10 grupos registrados nessa Federação, tivemos espetáculos que participaram de festivais nacionais de teatro como o espetáculo “Uma Professora Muito Maluquinha” do grupo ArtAtro.
Como é bom relembrar desse passado atuante que tivemos. Mas como é melhor falar do que está acontecendo nesses últimos dias no cenário teatral de nossa cidade.
Certa vez, assistindo uma entrevista da atriz e escritora Fernanda Montenegro sobre recursos para produção e montagens de espetáculos, ela com sua voz firme disse: “Cada um faz o teatro que pode.” Essa frase é a verdade de muitos grupos no Brasil e em nossa cidade é a realidade. As dificuldades não limitaram e nem limitarão o fazer teatral de agrupamentos artísticos. Grupos que se encontram em escolas, salas, quartos , cozinhas e salão de moradores, grupos que adaptam os figurinos por não obter auxílio, grupos que fazem dos projetos sociais espaços para ensaios e encontros, grupos que se encontram nas madrugadas para não ter que deixar seus afazeres diários e nem abandonar o teatro. Esses grupos têm invadido os espaços, becos, as praças, os corpos, as mentes. Grupos que fazem sem muita platéia, que de forma simples mas rica em afetos artísticos.
Nessas condições, vou citar alguns grupos e espetáculos que têm tomado visibilidade nesses últimos dias, como o grupo que começou em um projeto escolar e tem ganhado destaque no estado, a Companhia Dosoutros de Artes, que circulou alguns espaços com o espetáculo “Tamires”. Em um clássico infantil bastante conhecido, um grupo o transformou em um musical adaptado e produzido para todas as idades, o grupo Art’ Arteiros encenou “Chapeuzinho Vermelho” de uma forma que prende os olhos dos espectadores.
Falando ainda em clássicos o IFMT adaptou o musical “Saltimbancos” para os variados espaços, desde uma sala de aula até um palco de um Anfiteatro, dançam, cantam e atuam numa cidade onde as cabeças pensam não ter. Ainda do IFMT ganha destaque dois espetáculos: “Cartas a um Jovem Terapeuta” e “Meu Último Natal”. O primeiro discute o conflito de um jovem terapeuta que precisa tratar a si mesmo, esse conflito envolve seus questionamentos sobre o viver consigo mesmo e com a sua realidade.
Já o espetáculo “Meu Último Natal”, conflitua no palco a política de gênero, aceitação da sexualidade, e os questionamentos e significações de família na sociedade atual, isso tudo em um monólogo que acelera nosso coração. Não posso deixar de citar os muitos espetáculos da escola de formação artística que o Centro Cultural José Sobrinho se tornou, apresentou espetáculos infantis e adultos, ali tem se formado artistas para os palcos e para a vida.
Outro lugar de formação social e cultural é o Kobra que tem apresentado seus trabalhos de utilidade pública e de responsabilidade social, ali é um espaço de discussão dessas temáticas e assim levam aos palcos. Dentre esses destaques temos ainda o grupo que se encontra no SESC (abro aqui um parentese, o SESC é um grande apoiador dos grupos e artistas de nossa cidade, incluindo os espetáculos em seus projetos, trazendo oficinas gratuitas de formação e colocando o espaço cultural à disposição para ensaios abertos e utilização dos grupos) o Grupo Atoação se destacou com um espetáculo que encena a loucura e o amor, a lucidez e as razões de viver de uma mulher e sua bruxa interna. É o espetáculo Veneta. Todos esses grupos há pouco tempo de encontros já produziram o bastante para se destacar na arte de nossa cidade.
As companhias, grupos, espetáculos, artistas, coletivos, escolas e projetos sociais, a cada dia ganham força, mesmo não tendo força de quem tem “força” para ajudar. Eles vão “artevivendo” como diz o poeta, mesmo não vivendo da arte.
Vou findando este texto que descreveu um pouco do que temos de teatro por aqui (espero voltar para sugerir alguns caminhos que podemos seguir na arte do teatro). Volto a citar a frase “Cada um faz o Teatro que pode”. Nisso, vamos atuando nos espaços vazios, atuando nos auditórios escolares, atuando com o que temos em nossos guarda-roupas. Para fazer teatro precisamos apenas da platéia, que seja uma, que seja duas, que seja mil pessoas. Mas vamos nesse caminho, cantando, dançando, encenando, atuando… Atuando e andando… Sem parar. Não podemos parar. O teatro é o nosso oxigênio… Não podemos parar nunca. Com afeto. Com abraços cênicos.

(*) Dheysiel Barbosa – ator, diretor e produtor cultural

Foto: Roger Andrade

O Casario é o “Marco Zero” de Rondonópolis. Foi nesse local que começou a ganhar contornos de cidade, pois era ali que se fazia a travessia do rio Vermelho, feita por balsa.

Restaurado tornou-se centro cultural e atração turística às margens do rio Vermelho. Criticam-se as intervenções, restaurações e mudanças. No filme “Esse aqui não”, publicado em 2000, nota-se na filmagem aérea como era diferente do que se vê hoje.

O Parque da Águas é uma área de lazer, com quadras esportivas e pista de caminhada.

Como fazem parte de um conjunto turístico optou-se em escolher como uma das Sete Maravilhas de Rondonópolis.

A ponte e o próprio rio são importantes monumentos para contemplação, e instrumentos que permitiram a cidade tornar-se um centro de miscigenação geográfica, quando acolheu aqui os baianos, mineiros, goianos, maranhenses, paranaenses, mato-grossenses, gaúchos, paulistas, catarinenses, brasileiros e estrangeiros de outras terras, que viveram e ou vivem harmonicamente, sem xenofobia tratando-os como rondonopolitanos.

O pardo tom da Tânia

 

Ninguém faz igual,

quando concentra

nos nossos três biomas.

Ela adentra.

 

Inquieta,

talentosa,

ímpar,

meticulosa.

 

Aprofunda

na pura flora.

Apura,

explora.

 

Compõe,

em viva verve.

No pardo, verde e ocre,

a tinta ferve.

 

Usa as mãos,

na forma literal.

Artista completa,

plural.

 

2.12.17

Com muito juridiquês

 

Acompanhava o desenrolar da discussão de três amigos juristas sobre as eleições de 2016. Usavam palavras que acho serem códigos entre eles, porque não apareciam no meu dicionário de uso do dia a dia. Algumas dessas palavras eram muito bonitas e ditas por eles ficavam como se jogassem luzes nelas. Quando me foi dada a oportunidade de falar tentei dizer que também entendia o que eles falavam, mas na realidade era apenas uma oportunidade de demonstrar que deveria ficar calado, mesmo.
O assunto era o artigo que versava sobre a quantidade de cabos eleitorais, que os amigos diziam estar inclusos no artigo 100 duma lei número tal. Eu já achei a idade da lei muito velha para as mudanças que ocorrem tão rapidamente, como a internet nos mostra. Ademais, falavam nuns tais de parágrafos, que não era o mesmo parágrafo que eu conhecia, depois falavam incisos, que também não eram os dentes do juízo, alínea, que também pensei ser um nome de mulher, e, que eles estavam inventando tudo aquilo para me sacanear.

Entrei mudo e sai calado na conversa. Escutei muito e guardei palavra por palavra, para ver se existiam no meu dicionário predileto.

O primeiro amigo, que tinha uns 26 anos, branco, magro, cabelos lisos e de um olhar vívido, dizia para nós, como se estivesse num palco iluminado, falando com gestos complementares para uma plateia imaginária de 200 pessoas:

– Colegas – como se eu estivesse inserido naquele grupo -, com data máxima vênia, o cálculo está posto e o assunto exaurido. O total de prestadores de serviços nas campanhas eleitorais de 2016, aplicando a fórmula ali indicada é de 413, porque o limite para cabos eleitorais de municípios de até 30.000 eleitores é de um por cento do eleitorado por candidato, sendo que nos municípios com eleitores maior que esse total, é permitido um cabo eleitoral por candidato para cada grupo de mil eleitores que exceder os trinta mil, de conformidade com a Lei 9.504 de 1999, artigo 100-A, incisos I e II. Como na nossa cidade temos 143.537 eleitores, menos 30.000 totaliza 113.537 dividido por 1.000 é igual a 113,53, que arredondado para mais, como preconiza o parágrafo segundo do mesmo artigo o qual preceitua que, a fração será desprezada, se inferior a meio, e igualada a um, se igual ou superior, então teremos 114 militantes, mais aqueles 300 permitidos no inciso I, teremos o total de 414 cabos eleitorais, sendo 50% dele, a quantidade de 207, baseado naquele parágrafo segundo que citei anteriormente o correto é 207 e não se fala mais nisso.

Fiquei boquiaberto com tamanha desenvoltura. Preciso como um médico e seu bisturi. Confiante como o mestre de capoeira a chamar seus discípulos com a cantiga Paranauê, numa roda. Para minha grata surpresa o amigo número três, com a idade superior à soma mais a metade da idade do amigo número um, pelos meus modestos cálculos, com sua calma e retidão, seus cabelos enrolados e seus óculos de fundo de garrafa, começou a falar, após um pigarro:
– Com a douta sapiência e a resplandecente sabedoria do meu colega, que acaba de fazer uma excelente explanação sobre a quantidade de cabos eleitorais permitidos na eleição, gostaria só de acrescentar à luz embrionária do artigo 100, da citada lei, porém com o ano errado, pois o correto é 1997, que também tive a oportunidade de debruçar-me sobre ele, e após um longo e exaustivo trabalho de leitura e interpretação, só acrescentaria que há outras e complementares aplicações, as quais não foram aqui ditas, que é o parágrafo primeiro do mesmo artigo, onde afirma com todas as letras, que tais contratações observarão ainda os limites nas candidaturas aos cargos específicos, e aqui gostaria de frisar, que no caso do candidato a vereador, ao qual se deve aplicar o índice de 50% naqueles limites previstos nos incisos I e II do caput, até o máximo de 80% do limite estabelecido para deputados estaduais, e esse tem o seu total definido em 50% do limite estabelecido para deputados federais, sendo esse definido em 70% do limite estabelecido para o município com o maior número de eleitores, que no caso é 408.495. Urge e insta afirmar, que para calcular o total permitido para deputado federal é de 285,94, que arredondamos para 286, daí aplicamos o inciso IV do primeiro parágrafo, que é 50% para deputado estadual chegando a 143. Para finalizar e só ratificando os cálculos que estudei com muito afinco e dedicação, concordo em afirmar que o número de 143 é inferior a 207 do total que o colega encontrou como resultado, o que não está errada, mas não se aplicou o inciso VI do parágrafo primeiro, que dará um total arredondado de 207 cabos eleitorais, ficando acima do calculo de 143, que se prevalece.
Continuei mudo até um bichinho lá na minha cachola martelar tanto, que saiu a seguinte frase interrogativa:

– Então são 143, 207 ou 414 cabos eleitorais?

– Não senhores! Há um pequeno detalhe a ser avaliado – interpelou o meu amigo dileto número dois. Quarentão, bem sucedido, moreno, já com sua situação financeira definida e sendo bem gasta com seus ternos cortados sob medida, além dos impecáveis Givenchy, que desfilava no cotidiano.

– Desculpem a minha intempestiva intromissão, mas de conformidade com a nossa instituição-mãe, que nos adverte que devemos proceder de maneira respeitosa e que contribuamos para o prestígio da nossa classe e dos pares, só acrescentaria que nessa conta foi glosado o desconto de 30.000 eleitores do total de 408.495, trazido à discussão pelo colega que me antecedeu, conforme se vê na aplicação do inciso II, e mesmo que fique dúbia a interpretação do inciso III, para se achar o limite posto a deputado federal, eu, na mais modesta de todas as avaliações, e mesmo não sendo versado em matemática, posso corroborar e chancelar o numeral 190, que é menor do que a metade do cálculo de 413 já aqui exortado. Assunto exaurido – finalizou.

Posso afirmar que calado sou um poeta, como diria o goleador e hoje senador, Romário. O “exaurido” ficou martelando na minha cabeça e foi à primeira palavra que digitei no meu computador no ícone certo do dicionário eletrônico, quando cheguei em casa. Também já estava exaurido.

18.5.16

Hermélio Silva

Membro fundador e Vice-presidente da Academia Rondonopolitana de Letras – ARL, cadeira nº 06 – 2017/2018.