CASAMENTO TRISTE – George Ribeiro
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CASAMENTO TRISTE – George Ribeiro

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george-ribeiro-22-01-16

A tristeza deitou-se ao meu lado, na cama,
Sorriu-me com graça, como quem me ama.
Atraiu-se pelo rosto melódico, tom melódio,
Pela lágrima, pelo meu péssimo pensamento,
Pelos olhos que fitam a lâmina todo momento
E que, ainda assim, não revelam nenhum ódio.

Não há ódio, não há rancor, só há tristeza.
Somente ela posicionou-se com a certeza
De que sua companhia seria de meu agrado.
Decerto… Não sei o que tenho de agradável.
Sou tão tedioso, tão insalubre e deplorável
Que não sei como a tristeza me tem amado.

Terá sido o soluço ou golpe forte na parede?
Poderá ter sido ou autoflagelo, a fome, a sede
Que me fizeram de vez em quando desmaiar?
Não sei o que encanta e a traz a mim, tristeza.
Talvez seja essa semelhança ou a sua certeza
De que noites e dias não falharei em agoniar.

 

Esse deslumbre, talvez, deu-lhe credibilidade
De que teria um amante com ardente virilidade
E que dispõe as angústias a sua companheira.
Que tristeza! Veja que já a considero uma aliada,
A única que eu certamente contarei na noitada,
Seja na hora do poema ou na hora da bebedeira.

Tristeza, venha beijar a minha face do seu jeito:
Fisgada que traz a lágrima e a dor nesse peito,
Que tão machuca, perturba, mas permite viver.
E, essa é a difícil parte, tristeza: a continuação.
Descaso com a dor, demorada, e com o coração.
Órgão que tanto anseia por a si mesmo comover.

E, se eu continuar a viver, viverei com a tristeza…
O que me resta é abraçá-la e tratá-la com gentileza,
Pois a vida conjugal necessita dessa cumplicidade.
E agora eu sei! Sei do enlace, sei da mútua afeição…
Sei, tristeza, que meu choro calado foi a sua atração,
Que – pasme! – sente ao me ver uma atroz felicidade!

(*) George Ribeiro é poeta, rondonopolitano e membro da Academia Rondonopolitana de Letras, cadeira número 9.