Bons amigos
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Macropel

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Bons amigos

12.3.10

Senti um cheiro diferente e direcionei meus sentidos para verificar que odor era esse que tanto me intrigava.  O cheiro era bom. Não consegui identificar imediatamente. Saí da minha casa e resolvi dar umas voltas pela região. Assim que dei os primeiros passos notei que alguém estava comendo um tablete de chocolate com amêndoas, numa ação que demonstrava um sentimento afetuoso. Uma degustação incomum. Parecia comer o néctar dos deuses. Dali saía o objetivo da minha escapada solitária, incomum durante o dia. Além do cheiro, o modo como o sujeito comia o alimento me dava água na boca. Ele mastigava movendo as bochechas e às vezes eu via seus dentes brancos; e em dado momento engolia o bolo salivar. Voluptuoso. Eu engolia junto, mesmo sem nada na boca. Esperei ele me ofertar um pedaço, mas não o fez.

Fiquei um bom tempo olhando a cena; já ia desistindo para retornar à minha moradia quando vi um bocado do meu desejo, maior que eu, ao meu lado. Caiu do céu. Agradeci sem esperar resposta e corri para casa. Lá, descansei do labor degustando a comida. Comi até não aguentar mais e armazenei a sobra.

No outro dia, no mesmo horário resolvi dar mais uma volta sem destino. Desconfio que não era tão sem destino. Parei próximo ao canto esquerdo de uma peça plana. Notei que o senhor do dia anterior estava digitando alguma coisa muito importante, pois ele estava muito concentrado. Olhei seus olhos negros e vi que estavam brilhando. Li seu texto, que achei um pouco pobre, mas não quis intervir. Deixei-o divagar e às vezes devagar na construção da sua escrita. Vencido na formatação e exaurido intelectualmente, não acrescentou muita coisa no documento que digitava. O brilho de outrora estava esvaindo-se. Era iminente e eminente sua desistência. Não torci contra, mas notei que ele me notou. Levantou seu dedo indicador direito em minha direção, num ato que eu jamais imaginava e tentou me trucidar, quiçá me usando como catarse para seu estresse. Não obteve sucesso. Fui lépido na fuga. Também parecia ser outra pessoa do dia anterior, ou seu temperamento mudava muito célere. Corri feito um louco conseguindo entrar no meu bunker. Estava a salvo, por enquanto. Ele acionava insistentemente algumas teclas, como se já soubesse que esse ato pudesse me abater, ainda bem que ele não sabia qual era a tecla que poderia obter o sucesso desejado, se acionada, naquele momento. Segredo que guardo a sete chaves. Fiquei filmando-o de um lugar que ele não me alcançava. Ainda deu uma sacudidela no teclado, deixando-me de ponta cabeça, meio zonzo, no entanto desistiu e colocou o instrumento na sua posição original. Voltou ao texto e trabalhou exaustivamente. Não tive acesso ao que produziu, mas vi que o cansaço tomou conta dele. Fui descansar um pouco esperando a noite chegar para poder trabalhar em paz, sem o risco que estava correndo durante o dia. Voltei a ser notívago.

Evitei sair de dia, com medo de encontrar meu desafeto. Cancelei minhas visitas à claridade e à beleza que um dia lindo oferece. Isso me fazia pensar ainda mais em voltar à cena da visitação. Relutei por um bom período e, quando menos esperava, eu estava reforçando minhas mandíbulas, em exercícios longevos. Estoquei os feromônios e produzi uma grande quantidade de um ácido especial, pois queria visitar o ambiente que outrora estivera; além da astúcia, essas eram minhas únicas armas. O medo não me abateria antes da hora. Seria melhor eu litigar para não mitigar. Mas, se quiser briga, terá. Tamanho para mim não é documento, já ouvira isso antes. Quanto mais alto maior será o tombo, também já sabia disso. Tomara que não caia sobre mim quando lhe der um direto no meio dos olhos, ou um chute no meio dos cornos, pensei.

Como um calculista, fiquei tabulando quais as letras mais usuais que meu oponente digitava. Obtinha essas informações em demoradas contagens quando ele emitia seus relatórios. Era uma forma de me reorientar por onde fugir, caso necessário, mesmo com a certeza de que ele não me alcançaria onde eu habitava. Às vezes ele parava tudo e ficava navegando; noutras, lia e respondia e-mails. Acabei sabendo muitos segredos dele, mas não vou dedurá-lo aqui. Muitas vezes dava para assistir de onde eu assistia.

Lá vou eu. Como na minha casa não havia porta, já me deparei na rua. Procurei novamente ficar do lado esquerdo da peça. Era uma estratégica natural que usava, tendo em vista que a mão esquerda do oponente, que era destro, não tinha a coordenação motora tão boa, e eu já havia notado essa informação, quando da primeira crise que tivemos no passado recente. Isso forçava ele usar a mão direita e eu ganhava tempo para a defesa, tendo em vista que a mesma distava mais longe que a outra mão. Olhos negros e brilhantes, novamente. Era bom sinal. Olhou para mim e ficou inerte. Preparei-me para o pior. Ele continuava a me fitar. Parou tudo. Olhei dentro dos seus olhos e tomei coragem para me dirigir ao centro da peça. Ele me seguia com os olhos. Estava encabulado, mas juro que não tenho poder de hipnose. Era a mudança temperamental dele que afluía para o bem naquela hora. Andei em ziguezague. Ele moveu as mãos para uma gaveta e manuseou alguma coisa que não consegui identificar. Quando levou o tablete à boca, eu já havia sentido o cheiro característico do início dessa estória. Ele movimentou-se novamente e colocou um pedaço enorme daquela barra de chocolate na minha frente. Fiquei na dúvida se pegava o presente e saía correndo, ou não. Parei e pensei que o melhor a fazer era abocanhar o objeto desejado e vazar para casa. Foi o que fiz.

Daí, erigimos uma boa amizade e morei por um bom tempo no teclado do seu computador numa pequena colônia, no seio da minha família de formigas. E que ele continue terno e eterno.

 

Montreal