Abordagem repressiva não resolve problemas de usuários de crack, diz ONG
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Abordagem repressiva não resolve problemas de usuários de crack, diz ONG

Fonte: NOTÍCIAS DE MATO GROSSO com EBC
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O relatório “Crack: Reduzir Danos – Lições Brasileiras de Saúde, Segurança e Cidadania”, feito pela entidade, foi apresentado hoje (31) em evento na capital paulista e apresenta três ações que tiveram sucesso em mudar a dinâmica das chamadas cracolândias brasileiras. Uma dessas é o Programa de Braços Abertos, da prefeitura de São Paulo, lançado na gestão de Fernando Haddad.

O relatório da ONG apresentou três ações que tiveram sucesso em mudar a dinâmica das chamadas cracolândias brasileiras.Sebastian Liste/Noor/Open Society Foundations/Divulgação

As outras duas são: “Aproximação – A Cena de Drogas da Rua Flavia Farnese”, feito pela Ong Redes da Maré, do Rio de Janeiro; e “Atitude – Atenção Integral aos Usuários de Drogas e seus Familiares”, do governo de Pernambuco.

“O que o relatório mostra são três experiências no Brasil muito diferentes, mas todas elas partindo dessa premissa e partindo da ideia que é possível acolher e tratar esses usuários a partir da inclusão e não a partir da repressão, com resultados muito positivos”, disse.

Abramovay disse que esses são casos positivos no tratamento e redução de danos no uso do crack, em que muitos usuários pararam de consumir ou diminuíram radicalmente o consumo da droga. “ [Eles] deixaram de ser pessoas sem perspectiva de vida para serem pessoas produtivas, que estão trabalhando, que têm um espaço e que estão no caminho de ter uma vida positiva com a sociedade”.

Problema maior

O diretor da OSF disse que o uso do crack não está relacionado somente com a substância, mas abrange um contexto maior. Ele explicou que os três projetos não colocam como condição inicial a abstinência, mas a ideia de que o problema do usuário com a droga não é um problema só com a substância, mas com o entorno, com a exclusão, na relação com a família e com uma série de outros fatores.

“Partindo dessa premissa, você tem que tratar esses fatores antes de pedir para a pessoa simplesmente parar de usar [o crack], porque, se você olha só para a substância e os outros fatores se mantém igual, a pessoa depois vai voltar a usar”, disse Abramovay. Segundo ele, essas três experiências têm essa perspectiva em comum e apresentam mais resultados positivos do que aquelas em que foi utilizada uma repressão policial.

Experiência brasileira

Para o diretor da ONG, é interessante que o Brasil tenha experiências positivas que sejam comparáveis com o que ocorreu em outras cidades, como Vancouver, que são vistas como experiências interessantes a serem replicadas no mundo. “Nenhuma experiência é perfeita, mas o conjunto delas nos traz essas lições se a gente quiser enfrentar o tema com seriedade”.

Após a análise conjunta das pesquisas de cada experiência no tratamento de usuários de crack, a OSF elaborou sete lições para reduzir danos do uso da substância por pessoas em situação de rua. Entre elas estão ouvir os usuários e valorizar vínculos familiares, bem como sua autonomia; garantir oferta de moradia como fator-chave de estabilidade na vida dos usuários; criar medidas para reduzir a vulnerabilidade de pessoas em situação de rua que usam drogas à violência e a homicídios; e engajar as agências de governo de forma multissetorial, inclusive os órgãos de segurança pública, e envolver organizações de base comunitária.

Questionado se as lições poderiam servir de base para construção de uma política nacional de enfrentamento ao crack, ele acredita que sim. “As três [experiências avaliadas] são muito locais e eu acho que o envolvimento local tanto da comunidade como da prefeitura é fundamental, mas o governo federal pode induzir essas políticas, dizer que apoia políticas desse tipo e validar esse tipo de atuação. Fazendo isso, abre espaço para que localmente você tenha alternativas concretas”.