A gênese da crise dos caminhoneiros
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A gênese da crise dos caminhoneiros

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Conselheiro Antonio Joaquim - TCE - MT/Foto Assessoria

Existe um ensinamento de que devemos lembrar o passado para não repetir os erros no presente e, muito menos, reproduzi-los no futuro. Parece simples, mas não é, já que a maioria acaba por confundir esse “lembrar” com o ato de recordar, enquanto que a analogia correta deve ser com o ato de apreender. Se o indivíduo não consegue compreender, entender os significados, de nada valerá lembrar um equívoco cometido, uma decisão errada, um caminho percorrido sem alcançar os objetivos pretendidos. Continuará errando. Faço esta introdução para abordar a crise recente dos caminhoneiros e a paralisação das nossas rodovias.

O Brasil é refém dessa falta de sabedoria por ter concentrado e priorizado o desenvolvimento nacional em uma única matriz de transporte, o modal rodoviário. Os fatos esbofeteiam a face da nação, mas continuamos presos na antiguidade e atolados nessa visão míope. E não apreendemos o passado, que expõe a falta de planejamento. Melhores lentes nos revelariam que equívocos de políticas públicas, com boa ou má-fé, podem ser até mais danosos à população do que o câncer da corrupção.

A crise do caminhão é um exemplo clarividente. Poucos países têm potencial igual ao brasileiro para usar todos os tipos de modais, seja o rodoviário, o aquaviário, o ferroviário, o aéreo e o dutoviário. Aliás, a dimensão continental nos obrigava a ter essa concepção multimodal desde os primórdios do Brasil, com priorização daqueles que melhor respondem às necessidades relacionadas a grandes distâncias e transporte de grandes volumes, como o ferroviário e o aquaviário. Mas continuamos dependendo profundamente das rodovias e dos caminhões, carretas, bitrem e treminhões, pneus, óleo diesel e dos valorosos motoristas – que também são vítimas dessa dependência.

Tenho a sensação de que, no Brasil, sempre acertamos uma martelada no ferro e a outra na ferradura. Foi uma bela estratégia de Juscelino Kubistcheck, na década de 1960, sair da concentração litorânea e descentralizar o desenvolvimento nacional para a região Oeste, criando a nova capital, Brasília. Também acertou ao estimular fortemente a indústria automobilística. Mas as nossas elites dirigentes à época erraram feio e causaram danos irreparáveis e prejuízos gigantescos ao desenvolvimento do Brasil, ao privilegiar o modal rodoviário e relegar por décadas as ferrovias e hidrovias que já estavam funcionando.

As regiões Oeste e Norte responderam à decisão de interiorização multiplicando a produção agrícola. Mas têm dificuldades gravíssimas de escoamento. A riqueza produzida se extravia nesse círculo vicioso. Perde a maioria. Ganha uma minoria, que vive da construção de rodovias e da indústria e do comércio de insumos para o modal rodoviário.

Se houvessem planejamento e uma boa gestão das políticas públicas de transporte, teríamos atualmente uma ampla rede de ferrovias compatível com o tamanho do Brasil, assim como dezenas de hidrovias que, neste país, a própria natureza já se encarregou de criar. O lamentável é que dirigimos na contramão da lógica, pois os investimentos necessários para a adaptação, por exemplo, dos nossos imensos rios em modais de transporte são infinitivamente menores do que para a construção e conservação de rodovias. Rios como o Araguaia, Tocantins, Amazonas, Tapajós, Madeira, Paraguai, Paraná, enfim, tantos e tantos outros poderiam estar contribuindo decisivamente para o nosso desenvolvimento.

O próprio Oceano Atlântico, com os milhares de quilômetros da nossa costa, onde está grande parte da concentração populacional, poderia ter se transformado em um belíssimo exemplo de uso do modal aquaviário na modalidade cabotagem, com a construção de vários portos para a integração. Mais ainda: em um país onde o Norte está distante milhares quilômetros do Sul, a opção por oleodutos, minerodutos e gasodutos para transporte de produtos como gasolina, diesel, álcool combustível, minérios e gás natural deveria ter sido melhor considerada, com investimentos mais significativos.

O governo se gabou de ter colocado nas rodovias brasileiras mais de um milhão de novos caminhões nos últimos 10 anos, mas o desenvolvimento e a qualidade de vida no Brasil estaria bem melhor se, ao longo desses 40, 50 anos, os governantes que se sucederam tivessem colocado, também, milhares de vagões em trilhos e outras milhares de barcaças nos rios, fazendo a integração inteligente com o modal rodoviário.

Com certeza, essa ação no passado evitaria as perversidades do presente que assolam os caminhoneiros Brasil afora.

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Antonio Joaquim é conselheiro e Ouvidor-geral do Tribunal de Contas de Mato Grosso (TCE-MT). Graduado em Administração de Empresas, pós-graduado em Direito do Estado e Administração Pública e acadêmico de Direito.

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